domingo, 4 de maio de 2008

Amar... verbo essencial e construtivo







Será que amar faz realmente sentido? Será que se pode se considerar um felizardo aquele que um dia amou ou aquele que consegue amar? Não seria melhor passar a vida inteira sem saber o que é a dor de amar? Felizardo não é aquele que não ama, justamente, porque, por não amar, não sente dor?



Às vezes nos sentimos desiludidos com o amor… afinal, amar pra quê? Pra chorar? Pra sofrer? Pra posar de idiota diante do objeto amado? Porque muitas vezes é inevitável nos sentirmos verdadeiros imbecis diante do ser amado. Pois, quando ele se põe diante de nós, tudo ao nosso redor se desintegra. Só existe ele: o ser amado.

E o que dizer do ser amado? Seu olhar é a luz do sol clareando a vida. Seu sorriso é alegria pro coração. Sua voz é música para os ouvidos. Seu cheiro é melhor que qualquer perfume. Sua boca é a entrada para um labirinto aonde vamos nos perder sem querermos ser encontrados. Suas mãos são laços que nos prendem, nos atam e não nos importamos nem um pouco em ficarmos presos. Seu corpo é a morada de nossos mais secretos desejos. E o desejamos… Deus, como o desejamos! Nada é mais forte que a vontade de estar com ele. E como nos faz falta o objeto amado. De repente tudo tem menos importância. Tudo pode ser deixado pra depois. O objeto amado está sempre em primeiro plano.

E o quê dizer do ser que ama? Um pobre ser errante a vagar por terras desconhecidas. Um criador de ilusões. Um alimentador de falsas esperanças. Sempre à espera de um novo dia onde ele possa, novamente, tentar ser aceito. E ele vai… retira forças de Deus sabe onde? E vai. Prostrar-se diante daquela criatura fria, cega, surda, burra, insensível, que é o objeto de seu desejo. E mais uma vez expõe-se ao ridículo.

O ser que ama é só amor. Derrama amor. Irradia amor pelos olhos. Exala amor pelos poros. Seu coração pulsa amor. Seu cérebro fervilha de amor. É tanto amor que o peito dói, parece que vai arrebentar.

Diante do objeto amado, o ser que ama é um farrapo humano, “um joguete do destino²”. O que o mantém de pé é sua vontade infinita de permanecer ali, diante do ser amado. Pois suas pernas, essas já não têm mais utilidade alguma. São duas varas cambaleantes e trêmulas, que não sabem se vão, se vêm ou se ficam. Os braços são galhos ao vento. Não param de se mexer e “falam” mais do que a boca. Essa então, a essas alturas, deve estar mais seca que pó de giz, louca para expressar todo o amor que lhe vai à alma. E ela tenta. Se abre. Balbucia. Conta histórias. Fala da chuva que vai cair. Do calor de ontem. Fala, enfim, tudo o que não quer dizer, até que o ser amado precisa ir-se, deixando lá atrás o ser que ama. Completamente entregue ao desespero. Aos seus milhões e milhões de questionamentos, ao seu medo íntimo e infinito de não mais ver o objeto de seu amor. E assim, sem querer, o ser amado entrega o ser que ama ao inferno. Onde o fogo que o consumirá será o mesmo que arde em seu peito. Onde ele vai desejar morrer mil vezes e a morte não virá. Onde as noites serão séculos de tortura e os dias não serão de grande ajuda. Onde a vida será “uma estação roubada²”. E tudo o mais será muito pequeno diante de seu amor – sua dor... Pobre ser que ama… e ainda dizem que ele é um felizardo justamente por amar...


Mas... Será? Será que, quando amamos, sofremos?


Para os espiritualmente evoluídos, amor não causa sofrimento. O que nos faz sofrer é a dependência, a paixão, o amor romântico, que nos dão a ilusão de amor. Porque amor verdadeiro não se transforma em outro sentimento, não varia de acordo com o resultado das expectativas que temos, não cria dependência, não faz exigências, não aprisiona, não causa sofrimento.

Para os espiritualmente evoluídos, o ato de não nos sentirmos amados ou dignos de amor significa que ainda não nos identificamos com a nossa natureza espiritual: somos amor. E independentemente de havermos ou não perdido o nosso senso de amor, o amor é a nossa essência. 

Se estamos sofrendo, não é amor. Pode ser necessidade de sentir-nos amados, pode ser baixa autoestima; pode ser que o nosso ego esteja criando expectativas e exigindo resultados, pode ser que estejamos tentando obrigar o outro a sentir por nós o amor que nem sequer sentimos por nós mesmos; pode ser que estejamos apenas amando a possibilidade de amar e ser amado; ou simplesmente tentando obrigar o outro a aceitar não só o suposto amor que sentimos, mas também aceitar a nós mesmos, ainda que nem nós nos aceitemos...
Quando, ao amar, nos vemos em êxtase; quando, ao amar, nos sentimos em paz, nos livramos de nossos apegos e necessidades EGOístas, quando ao amar crescemos animicamente, então amar faz realmente sentido. Então se pode considerar um felizardo aquele que ama porque amar é a nossa mais pura essência.

Porque o ser amado talvez não seja assim tão insensível? Porque há sempre a possibilidade de reencontra-lo, para falar-lhe do nosso amor contido. Porque o objeto amado pode corresponder ao ser que ama. Porque ambos podem tornar-se objetos amados e seres que amam. Porque o que importa mesmo é “amar e, em troca, amado ser¹”.




1 – Trecho do texto do filme “Moulin Rouge – o amor em vermelho”.


2 – Trecho do texto do filme “Shakespeare Apaixonado”.







4 comentários:

  1. Este comentário foi removido pelo autor.

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  2. http://nadiajung.wordpress.com/2010/06/26/beto-rita/

    Um conto vivido...
    Amar é amar...

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  3. http://nadiajung.wordpress.com/2007/09/27/e-o-vento-levou/

    ...o término, ou a morte ou o corte.

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  4. Eu já me rendi à inquietude das bocas, das nucas e das mãos que me acolhem pelas madrugadas, de bar em bar, que nem espero mais. O amor, hoje, para mim, pode ter qualquer sabor.
    Enquanto a manhã não chega, enquanto o mundo não acorda, costumo saciar minha sede com uísque e saliva. Sempre estou a fim de mais uma dose e nunca recuso remédios que me deixam alegre, principalmente para tentar escapar dessa monotonia infernal, desse tédio monocórdico.

    O FIM DO AMOR!

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