quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Mais uma vítima da educação





Foi em 2005 que conheci Kamilla e sua irmã Brenda. Naquela época, elas tinham, respectivamente, 13 e 10 anos e ambas estudavam na escola onde trabalho como Bibliotecária. Foi amizade à primeira vista... Só que a vista era muito mais nas brincadeiras delas (risos).







Quando nos conhecemos, a Brenda fazia a 5ª série (6º ano do Ens. Fundamental) e a Kamilla a 8ª série (9º ano do Ens. Fundamental). Em 2009, a Brenda já cursava, aos 14 anos, o 1º ano do Ensino Médio. Já a Kamilla aos 17... continuava na 8ª série.

Apesar das repetências, devo dizer que a Kamilla é um desses 'geniozinhos' com os quais a escola não sabe lidar.






É impressionante, mas a escola consegue sempre expulsar ou desmotivar os melhores. Poucos são os que, trabalhando em uma escola, conseguem lidar com os que mais dão trabalho, com os que são exigentes, com os questionadores, os que têm dificuldade em se concentrar e acham tudo um “saco”.

Professor não gosta disso. Então, é melhor considerá-los inquietos, mal comportados, insatisfeitos, ou que nunca querem nada com a vida.






Kamilla e Brenda viviam enfiadas na Biblioteca da escola. Sempre me diziam que preferiam ficar lá a estar em sala de aula.




Elas achavam as aulas entediantes e não conseguiam associar aquilo que tinham obrigação em aprender com o lado prático de suas vidas.







Kamilla fazia o tipo que não se encaixa, não se acha em lugar algum. Exatamente como me sentia na idade dela – talvez até hoje. Conversávamos sobre assuntos variados, mas principalmente sobre livros e os absurdos da vida.







Nunca nos importamos com a diferença de idade que temos. A amizade se fez... Como um reencontro de antigas almas. Eu a aconselho sempre, tento fazê-la enxergar algumas regras, as quais, infelizmente, temos que seguir se quisermos suportar a convivência em sociedade. Mas nunca deixo de me surpreender quando ela, do seu jeito, me dá outras lições de como viver.







Ela canta como a Amy Winehouse ou Alanis Morissette... Juro que eu gostaria que ela fosse descoberta. Fiquei encantada quando soube que a primeira gravação do hino da cidade onde vivo tem a voz da Kamilla.

Em 2008, ela tentou concluir o último ano do Ensino Fundamental de novo... Esta seria a quarta vez.







Mas eu notava o quanto era complicado e mesmo difícil pra ela. Era rotulada de "problemática", "estranha", "roqueira", "repetente", "louca". Ela se sentia um alienígena em meio aos alunos ditos “normais”. Me preocupava, pois ser excluído não é fácil.






Ela era uma solitária e como tal, estava acima da mediocridade da maioria... E isso incomoda. As pessoas não gostam dos que são diferentes, preferem rotulá-los e fazer de tudo pra diminuí-los ou então fazer com que se sintam ridículos, excluídos, marginalizados.







Cada vez que a Kamilla tinha que entrar na escola, era uma confusão! Nesta foto o cabelo está até comum, apesar do comprimento todo. Mas ela muitas vezes chegava com ele de outras formas: rosa com laranja, preto com vermelho, metade louro metade ruivo... Eu achava lindo e exótico. Já o restante da escola...







Ela recebia olhares recriminantes desde a entrada até a saída, por quem quer que fosse: alunos, orientadores, diretores, professores, serventes... Os alunos eram incentivados pelos próprios funcionários da escola. E a olhavam como: a estranha.
Enfim... Qual o refúgio da Kamilla? A Biblioteca.







Seu visual meio Avril Lavigne (mais autêntica, eu acho) foi motivo, no ano de 2008, para várias idas dela à Coordenação da escola. Então eu ficava me perguntando: pra que serve a escola? Devemos ser criados como robôs em série? Por que não somos respeitados devidamente em nossa individualidade, nossa diversidade? Pois não é justamente isso que o ser humano tem de mais belo, o fato de cada um ser um grande e único mundo?







O que será que significa “inclusão” para as pessoas inseridas em algo que chamamos de Educação? Será que estamos entregando nossos filhos à pessoas realmente preparadas para educá-los? Afinal, o que é Educação? É reprimir? É criar robôs que obedeçam?







Será que roupas pretas com caveiras estampadas, ou pulseiras enormes nos braços e colares no pescoço, ou cabelos tingidos talvez de azul impedem alguém de aprender? Será que unhas em negro retiram massa cinzenta do cérebro de alguém? A Brenda, irmã de Kamilla, nunca sofreu perseguição na escola porque, muito embora também fosse inteligente, era visualmente comum.







Mas que escola é essa que ensina os alunos a discriminarem as pessoas por sua aparência, por suas escolhas, por seus gostos? É muito bonito matricular um portador de necessidades especiais, pois assim a escola se mostra inclusiva. Mas que tipo de inclusão é essa que discrimina, que impõe comportamentos ditos "normais"?

O que mais afastou a Kamilla da escola foi a própria escola. E eu não a recrimino por ter saído. Afinal, era preciso sentir o gosto da liberdade em algum lugar. No ano de 2009 ela passou a estudar à noite. Na rede pública ela não podia mais estudar durante o dia, pois já havia feito 18 anos. Em 2010 ela iniciou o Ensino Médio, mas em outra cidade. Está determinada a isso. Sente-se sufocada aqui, nesta cidade, e eu a compreendo.






Algo que esqueci de mencionar: observem a posição do caderno.






Pra ela tanto faz com que mão escreve. Se é com a direita ou com a esquerda, tanto faz. E o caderno fica de cabeça para baixo, geralmente.






Mas pode também ficar de lado, reto, não importa. Ela escreve do mesmo jeito. E, antes que eu esqueça, isso também incomodou muita gente.







É por causa de histórias como a da Kamilla (e eu conheço várias outras, bem piores por sinal), que percebo o quanto o chamado "investimento na Educação" é falho no Brasil. A escola infelizmente não cumpre com o seu papel que é preparar um ser em formação para agir como um ser humano (sentido amplo a essa expressão, por favor), como um cidadão crítico. Está tudo lá na Lei de Diretrizes e Bases da Educação. Tudo lindamente escrito como na nossa Constituição... Só que não é obedecido, não é concretizado. E é dessa forma que continuamos formando pessoas que não conhecem seus direitos nem seus deveres. Somos nós que, em nossa infinita ignorância, formamos esse país... E isso é uma lástima!







Sabe por que um médico é valorizado financeiramente e respeitado profissionalmente e mesmo socialmente? Ou um advogado, um juiz, um engenheiro? Porque além deles serem responsáveis por vidas humanas eles são cobrados por isso. Vidas humanas são importantes para a existência e o sustento de uma nação. Alguém precisa trabalhar para sustentar o ócio político/governamental e periodicamente ir às urnas eleger mais alguns "sanguessugas" para a continuidade desse ócio.

O fato crítico é que não atinamos ainda para a realidade de que a escola "mata" milhões de pessoas por ano e ninguém toma providência. Simplesmente porque são mortas por dentro e deixadas vagando por aí, como mortos-vivos. O “profissional” da educação não é valorizado nem com relação à responsabilidade que exige a sua profissão, muito menos em sua remuneração, porque ele não quer assumir suas reais responsabilidades.

Ninguém neste mundo que queira ser um médico, ou advogado ou engenheiro pode ficar sem passar por uma escola ou por um professor. E, no entanto, o professor é menos valorizado que a maioria das profissões. Mas por culpa de quem? Após anos trabalhando lado a lado de profissionais da área de licenciatura, ouso dizer: por culpa deles mesmos.







Assumir responsabilidades não é para qualquer um. Enquanto o profissional da educação não se der conta de que pode matar também, enquanto os chamados professores/educadores não se conscientizarem de que são responsáveis por vidas humanas em pleno estado evolutivo, vamos continuar enchendo esse País de mortos-vivos sem questionamento, sem opinião própria, cegos para a realidade que os cerca, desinformados principalmente de sua grandiosidade humana. Pois, infelizmente, nem todos estão acima da mediocridade para conseguir passar pela escola sem ser atingido negativamente por ela.




P.S.: Esse texto eu, Alessandra Garuzzi, escrevi pela primeira vez pra colocar num álbum do Orkut. Uma pessoa leu, gostou e me pediu para postá-lo em um blog seu. Acabei reescrevendo e ficou assim.

2 comentários:

  1. Eu simplesmente adorei o texto!
    E a única coisa que consigo ver quando olho para essa menina, sou eu mesmo num passado próximo.
    Pessoas como nos moldamos nossos próprios futuros, mesmo sem querer criamos nossas próprias barreiras! Mais não pense que haja algo de errado com isso, pois assim conseguimos aprender bem mas os que os "comuns" até por que, se você e diferente ou tem opinião própria você já e descriminado.
    Só que não somos fracos, mesmo ainda sendo a menoria, somos capazes de coisas além do normal.
    Até por que, com criticas constantes acabamos aprendendo a nos defender... e com nossas defesas começamos a criar nossas opiniões. E quando temos opiniões que não são regidas pelos lideres escolhido pelos demais. Acabamos sendo intitulados como varias coisas.
    Mesmo ainda sendo poucos, acredito que um dia voltaremos a ser muitos novamente! Será o dia que a sabedoria voltar a ter sincronia com o nossos espíritos.

    Parabens pelo post.
    Abraços

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  2. Olá. Obrigada por ter lido e principalmente comentado.
    Ando numa fase que está me deixando meio sem tempo. Desculpe não ter respondido antes.
    Abraços pra você.

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