segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Atestado de Honestidade

Panem et Circenses





Um dia chegou um homem à porta da casa de uma tia minha perguntando se ela gostaria que ele limpasse o quintal dela. Esse tipo de trabalho é muito comum em cidades do interior: rapazes ou senhores costumam fazer serviços diários nas casas das pessoas, cobrando uma taxa pelo trabalho executado: podas de árvores ou grama, limpeza de quintal, conserto de portas, etc.

No entanto, todos nós sabemos o quanto pode ser arriscado deixar que um estranho entre em nossa casa, seja lá para o que for. E foi pela expressão de desconfiança no rosto de minha tia que o tal senhor tratou logo de tirar-lhe toda a preocupação dando – o que parecia ser – o seu atestado de honestidade: eu sou evangélico, senhora. Ao que ela, com todo bom humor, lhe respondeu: muito prazer, eu sou católica e muito obrigada, mas eu não estou precisando de nada.

Em tempos de excessivo crescimento no protestantismo – melhor generalizar em detrimento das inúmeras igrejas inventadas e reinventadas, tornando-se bem complicado saber os seus nomes –, parece-me conveniente a alguns ter que escancarar o fato de fazer parte deste tão emergente clã. Até a maior rede de TV deste país se faz adepta lançando dezenas de propagandas de CDs e "embalando os nossos domingos" (pura força de expressão) ao som da tal música Gospel.

Não sei quantos cantores e bandas dos mais variados ritmos – já que hoje em dia tanto faz o ritmo, contanto que a letra fale de Deus, Jesus e afins – já deixaram a dita música “mundana” para aderir ao hit do momento, afinal “todo artista tem de ir aonde o povo está”, como sabiamente aconselha o incomparável Milton Nascimento, que, se eu bem me lembro, tantas vezes falou de Deus e fé sem ter que necessariamente levantar bandeira alguma… enfim.

Acho mesmo interessante como associar religiosidade a caráter íntegro é de fato uma realidade na mente de muitas pessoas. O que ocorre é que, de uns tempos pra cá, tal crença atingiu a mente dos políticos: muitos estão utilizando este “atestado de honestidade” para garantir seu eleitorado. Calculem a quantidade de eleitores conquistados através desse método: Calcularam?

Agora associem isso ao velho hábito também político de usar a perseguição política sofrida à época da ditadura como atestado de incorruptividade. Teremos então a equação seguinte: sou evangélico + fui preso e banido do país pelo regime militar = sou honesto e incorruptível. Aí eu lhes digo que a desgraça está realmente feita.

Não é a toa que "nunca na história deste País" o povo recebeu uma Educação digna. "Nunca na história deste País" esse povo recebeu um bom tratamento num hospital público, "nunca na história deste País" fomos descentemente governados.


E agora não se compra mais votos com dentadura, nem com tijolos, pois nossos impostos não são usados em causa própria apenas em época de campanha política, mas sustentam planos eleitoreiros que duram todo o tempo de governo. Transformando em porca ditadura aquilo que aparentemente é democracia. E já há quem fale em calar a liberdade de falar!!!

O que percebo é a falta de cuidado em averiguar quem entra para organizar a casa ou o quintal. Basta um discurso medíocre e vamos deixando que entre qualquer um. A casa tem sido profanada e os donos constantemente passados para trás.


E já que só o que importa é a aparência: vamos cantando – não importa o ritmo, tanto faz, fale de Deus que está tudo certo - e prometendo. De repente, essa é a fórmula para alcançarmos a glória eterna ( a velha promessa do Paraíso), ou então fazer deste um País digno (a velha promessa de um governo honesto e para todos).



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