terça-feira, 21 de dezembro de 2010

O Último Voo do Flamingo


Capa da obra.



Situado na costa Oriental do Continente Africano, fazendo divisa com a África do Sul, Moçambique é, acredito eu, um dos países africanos mais conhecidos. Com uma superfície territorial um pouco maior que 800 mil km², a República de Moçambique (nome oficial) tem como Capital a cidade de Maputo, como Idioma Oficial o Português, como moeda o Metical e a República como forma de Governo. Como religião, os moçambicanos seguem Crenças Tribais, mas também o Catolicismo e o Islamismo. Moçambique possui uma das rendas per capitas mais baixas do mundo e tem como base econômica a agricultura, a mineração, o comércio internacional e as indústrias leves.

Embora seja muito comum à maioria saber pouquíssimo sobre os países africanos, de um modo geral os meios de comunicação costumam se encarregar de nos deixar bem informados acerca deles no quesito “uso e abuso do território africano” e as consequências negativas disso. Portanto, nem que seja só de relance, somos sabedores do antiquíssimo interesse estrangeiro por boa parte da África. No caso de Moçambique, intencionando o comércio e a busca por ouro, as feitorias no local foram iniciadas pelos árabes nos séculos XI e XV. No entanto, a colonização se deu mesmo foi por mãos portuguesas com a chegada de Vasco da Gama no final do século XV.

Alvo de conquistas territoriais em virtude de riquezas como as minas de carvão, o marfim e, infelizmente, o comércio de escravos, Moçambique sofreu, digamos assim, “o diabo” antes de deixar, há pouco tempo, de ser colônia de Portugal, basicamente em 1975. Claro que, em se tratando de colonização africana, Moçambique não é nenhum “privilegiado”. Graças à típica ganância humana, em se tratando de países africanos colonizados, infelizmente, há casos bem piores.

Mas, enfim, o que quero eu com toda essa conversa histórica e geográfica sobre Moçambique?

Quero eu falar de Literatura. E das boas, devo acrescentar. Sim, porque se há algo do qual os falantes da Língua Portuguesa podem se orgulhar, certamente, é por nela poderem contar com excelentes escritores. E dentre eles posso destacar, com toda segurança aqui, Mia Couto.



Saramago e Mia Couto




Então, comentarei aqui sobre uma das obras dele: António Emílio Leite Couto, mais conhecido por Mia Couto. Um escritor moçambicano cuja biografia vocês poderão encontrar digitando seu respectivo nome no Oráculo Virtual também conhecido como Google.

Misturando a cultura moçambicana, a tradição oral de seus habitantes – falantes de um Português dialetal às vezes complicado, mas não impossível de se entender – e inúmeras formas de escrita, este, que é o quarto romance do autor – lançado no ano 2000 quando, na ocasião, Moçambique comemorava 25 anos de independência de Portugal –, é um livro escrito de forma encantadora: as palavras foram trabalhadas como fios de lã num tear: você olha a mistura dos pontos e, mesmo que goste daquilo que vê, você fica tentando entender como cada fio foi entrelaçado até gerar a peça final. A peça final deste maravilhoso entrelaçar de palavras é o livro O Último Voo do Flamingo. Um livro para se ler mil vezes. E, em cada vez, com uma alma diferente.

Bem, assim como boa parte do território africano, Moçambique também foi uma área bastante atingida por guerras arrasadoras. Da mesma forma ocorreu em Tizangara, cidade fictícia onde perpassa o romance que, após um período de guerra civil, abriga soldados da Organização das Nações Unidas (ONU) que lá estão para acompanhar o processo de pacificação do local.

Dentre os vários mistérios que ocorrem no lugar – ressaltando que estamos a tratar de África e suas ‘africanidades’ – o maior deles trata-se de um enigma envolvendo militares da ONU que estão, sabe Deus como, explodindo, restando deles apenas seus órgãos sexuais. Exatamente isso: para cada pênis que aparece do nada – no meio da estrada, pendurado em ventiladores, no meio do mato –, há o desaparecimento de um soldado. Claro que, precedendo tudo isso, há sempre uma estranha explosão ouvida pelos habitantes locais.

Para desvendar esse mistério, além da ajuda da maior prostituta da cidade (melhor ajuda impossível quando o assunto é reconhecer um pênis perdido), chega à Tizangara o italiano Massimo Risi, auxiliado por um habitante local que, além de seu guia e tradutor, é também o narrador do romance.

Claro que a história trata-se de uma crítica do autor face à situação de caos e miséria vivida pela população moçambicana que, não bastasse ter que suportar os horrores da guerra, ainda precisa esforçar-se e muito para manter vivos os costumes de seu povo, preservando-os da influência estrangeira.

Críticas políticas e sociais à parte, a história é narrada de forma encantadoramente poética, nos colocando em contato com uma forma diferente de falar a Língua Portuguesa através da oralidade local – vozes africanas que contam suas histórias –, presente nas cartas que são enviadas por alguns moradores de Tizangara ao investigador Massimo, ocupando estas, algumas vezes, capítulos inteiros da obra.

Buscando valorizar o maravilhoso universo africano, Mia Couto dá explicações aos mistérios a partir de leis naturais que acontecem apenas em Tizangara. Leis que lembram a seu povo – e aos leitores do livro – que é o voo do flamingo que faz o sol voltar a brilhar depois de um período tenebroso e opressivo. 

Deixe-se emaranhar no encantador trançado de palavras de Mia Couto. Não sei se pelas misteriosas ‘africanidades’, mas este é um livro terapêutico. Então, não se espante se, no decorrer da leitura, você se sentir desnudado, antigas feridas cicatrizando e a alma humana sendo revelada. Boa leitura.

“Em fins de tarde, os flamingos cruzavam o céu. Minha mãe ficava calada, contemplando o voo. Enquanto não se extinguissem os longos pássaros ela não pronunciava palavra. Nem eu me podia mexer. Tudo, nesse momento, era sagrado. Já no desfalecer da luz minha mãe entoava, quase em surdina, uma canção que ela tirara de seu invento. Para ela, os flamingos eram eles que empurravam o sol para que o dia chegasse ao outro lado do mundo.” (trecho da obra)



http://cinema.sapo.pt/filme/o-pltimo-voo-do-flamingo-0/media






Extra: Devo acrescentar que a obra foi ao cinema. Então, aos preguiçosos para ‘leitura de palavras’, há a chance de inteirar-se da história ‘lendo-a’ cinematograficamente. Claro, nada se compara ao livro. Mas, se acaso alguém quiser ler o livro, este pode ser baixado gratuitamente pela internet, em formato PDF.

Algumas obras do autor: Cada Homem é uma Raça; A Confissão da Leoa; Na Bema de Nenhuma Estrada; Vozes Anoitecidas; Terra Sonâmbula; Vinte e Zinco; Um Rio Chamado Tempo, Uma Casa Chamada Terra; entre outras obras.

4 comentários:

  1. Bacana Alê, eu sou fã da literatura africana e da portuguesa em geral. Esse livro é fácil de ser achado?

    Bjão amiga sumida...rs

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  2. Acabo de enviá-lo em PDF por e-mail pra você. Beijos e obrigada pela visita.

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  3. Agradecendo e retribuindo o carinho da visita ...

    Felicidades

    bjux

    ;-)

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  4. Eu também agradeço. Entrei em seu blog por acaso (se é que o acaso existe) e ganhei um presente com a poesia de Quintana.
    Abraços...
    Sucesso...

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