terça-feira, 8 de março de 2011

Das Declarações de Amor que a mim Encantam






Há quem por aí sustente, com muito ensejo, devo admitir, que o romantismo há muito expirara. Eu, por verificá-lo sustentado em eternizadas palavras, arrisco-me a declará-lo vivíssimo. À duras penas, mas, vivíssimo.

Vejo-o ressuscitando, por aí, vez ou outra em escritos literários, papéis soltos ao vento, mensagens telefônicas e mesmo (por que não?) em virtuais páginas da tão contemporânea internet. Bom mesmo seria tê-lo em suave voz ao pé do ouvido...

No entanto, encravadas no romantismo, as declarações de amor nos encantam a ponto de fazer até mesmo com que mudemos atitudes juradas por nós como imutáveis. Pois, como expulsar de sua vida o infame que ousa dizer-te:


“Não resta em mim
Um lugar sequer para
Engastar seus cravos,
Arremessar suas lanças,
Fincar seus espinhos,
Golpear seus machados,
Atirar suas facas e destilar
O produto de suas alquimias.”


Ora veja, vais perguntar-me: O romântico é então um bufão? Um pueril que se deixa levar por qualquer palavra bem colocada? Não... O romântico é apenas alguém que ama... E quem ama perdoa... Quem ama aceita, faz todas as vontades... Quem ama submete-se... Entrega-se totalmente.

O romântico é, antes de tudo, um seguidor de seus próprios sentimentos. E, se ele ama, acaba sempre deixando-se levar pelo objeto amado, deitando-lhe de volta seus protestos. E, sem economia alguma, jorra-lhe suas comiserações:


“Tão traspassado estou por suas setas
Que suas lestes asas
Não conseguem transportar-me
Para o alto.
Tão peado,
Que não posso deixar
A dor obscura,
Sob o fardo do amor
Gemendo sempre.”


Como resistir a um romântico e seu enredado modo de expandir o que lhe vai à alma? Como virar-lhe o rosto diante de tão bem talhado discurso?

O fato é que não há objeto amado que não se deixe desvirtuar por letras tão doces. E a cada junção de sílaba, a cada léxico formado, a cada elocução rematada, ei-lo... O alvo... Completamente enfeitiçado:


“Não sou piloto;
Mas se te encontrasses tão longe
Quanto a praia mais extensa
Que o mar longínquo banha,
aventurara-me para obter
Tão preciosa mercancia.”


Então, é arma eficaz o tal protesto amoroso?

Se consideras uma guerra o ato de amar, asseguro-lhe a dinâmica da armação. Desde que estejas apto e desejoso de utilizá-la. Assim sendo, indagar-te-ei: Conseguirias chegar a este arrojo?


“Fora com as formalidades!
É certo: estou perdida, louca de amor;
Daí poder pensares
Que meu procedimento é assaz leviano;
Mas podeis crer-me, cavalheiro,
Que hei de mais fiel mostrar-me
Do que quantas têm bastante astúcia
Para serem cautas.
Poderia ter sido mais prudente,
Preciso confessá-lo,
Se não fosse teres ouvido sem que eu percebesse,
Minha veraz paixão.
Assim, perdoa-me,
Não imputando à leviandade,
Nunca, meu abandono pronto,
Descoberto tão facilmente
Pela noite escura.”


Ou, quem sabe, crendo que poderias fazer uso da ousadia, te desnudarias ainda mais das formalidades e correrias o risco de atirar ao objeto amado tais palavras:


“Sou um doente por querer tirar sua calcinha?
Onde estou errado?
Por querer mordiscar seus seios?
Onde estou errado? Sou doente por isso?
Por me extasiar com sua inteligência?
Onde estou errado?
Por me fascinar com sua capacidade de articulação?
Sou doente por isso?
Por fazer planos junto a você?
Sou louco? Por quê?
Explique-me!
É a primeira vez que vejo uma pessoa
Ser taxada de doente por adorar um monumento!
Mais do que amar alguém,
Você está com medo de ser amada.
Você não tem explicações para aquilo que a envolve
E a faz tremer de desejos.”


Sim, por dar-se tais liberdades, quem ama é muitas vezes tributado como louco. É criticado, espezinhado, posto à prova, escorraçado!

Para não sofrer tais acusações, optarias então por mais deleitáveis palavras? Talvez como estas:


“Fala de novo, anjo brilhante,
Porque és tão glorioso para esta noite,
Sobre a minha fronte,
Como o emissário alado das alturas
Ser poderia para os olhos brancos
E revirados dos mortais atônitos,
Que, para vê-lo, se reviram,
Quando montado passa nas ociosas nuvens
E veleja no seio do ar sereno.”


No entanto, só quem ama insiste, joga-se, põe-se em frangalhos... E, comiserado pelo que lhe corrói, destila no objeto amado suas mais dolorosas missivas, sejam elas oralizadas ou escritas... Ou mesmo digitadas:


“O príncipe, em terras distantes,
Fez de uma princesa sua rainha.
A rainha, agora princesa,
Sujeita as veleidades da corte,
O enfeitiçou.
Dele fez um sapo.
O príncipe, agora um sapo,
Sob os andrajos de um plebeu,
Sujeita-se as veleidades da corte,
Onde as princesas são muitas,
Mas parcos são
Os trejeitos de uma rainha.”


Arriscarias a dizer-me que em ocasião alguma caístes numa “cilada” dessas? Jamais sentistes nos tímpanos ou passastes o olhar por tão cortante linguagem?

Nunca, ao despedir-se de teu objeto amado, caíste na tentação de dizer-lhe:


"Toda despedida é dor...
Dor tão doce todavia
Que eu te diria boa noite
Até que rompesse o dia."


Se nada disso jamais lhe ocorrera, dir-lhe-ei então que tens uma incompleta e mal arrastada vida, pois é lamentável que jamais tenhas sentido tanto amor que este se lhe tivesse escapado da boca ao mundo. Ou que jamais tenhas te sentido tão amado a ponto de ter sido presenteado com palavras tão belas quanto estas:


“Se adentrares esse novo dia
E não pensares em mim,
Estarás pronta para
Deletar-me de seu coração.
Se pensares, estarás pronta
Para deixar que seu coração
A conduza até aos meus braços.
Bem sabemos que os nossos pensamentos
são fecundos.
Bem sabemos que somos espíritos em sintonia.
Bem sabes, que através de seus olhos,
Posso mergulhar em sua alma.
É o que me é permitido dizer.”


Devo dizer-lhe, acredite em um romântico quando este lhe confiar a experiência das confissões amorosas. E adjudiques em seguir o ditame de copiar-lhe as atitudes. Busque seu amado ser e lhe apresente seus entraves mais profundos. Aos diabos que do ser amado não lhe venha reação alguma. Apenas ame! Pois, seguramente, um dia o amor há de lhe vir regressado.




4 comentários:

  1. Acessei o blog por sugestão(quase imposição)de um amigo e confesso - estou boquiaberta, próxima do êxtase. Senti que a arte de criação da autora não é a "inspiração" e sim uma "transpiração de sentimentos". A inveja apossou-se de mim. "Eu também quero...". História, texto, poesia, ficção, poema. Não importa. Deixei incorporar-me por estas linhas de incontidos e latentes desejos. Parabéns.

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  2. A quem quer que seja você (lamentável que eu não saiba), agradeço-lhe profundamente.

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  3. Bela postagem Alê, mas sinceramente eu acredito quase nada no amor. Até queria acreditar, mas acabo tendo um grande choque de realidade.

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  4. Renan... o que dizer?.............................. Sinto muito por sua incredulidade...
    mas obrigada pela visita.
    Beijos...

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