sexta-feira, 2 de setembro de 2011

E quem disse que a Ditadura acabou no Brasil???


Pela minha liberdade de expressão, para saber se a Constituição do Brasil funciona de verdade, pelo meu direito de cidadã que paga (muito alto) pelos seus impostos, porque não há nenhuma mentira aqui e, principalmente, para que não me acusem daquilo que não escrevi, eis o texto polêmico de volta.





A Educação no Brasil pede socorro!
Até quando nossos governantes e o próprio povo
cerrará olhos e ouvidos para essa situação de calamidade que todos nós vivenciamos?



Têm se tornado cada vez mais comum nos noticiários, seja lá de que tipo for, as reportagens sobre violência nas escolas, agressão a professores, evasão escolar, empresas com dificuldades para encontrar pretendentes a emprego que correspondam as suas expectativas empregatícias... enfim, zilhões de consequências que a péssima educação ofertada por esse País tem gerado à sociedade brasileira como um todo.



É lamentável que estejamos vivendo a era das estatísticas. E isso não seria ruim se estas fossem reais e mudassem para melhor a vida das pessoas. No entanto, as estatísticas governamentais não têm nos auxiliado positivamente em quase nada e ainda têm mascarado muitas situações sociais. E, como exemplo, eu posso citar a caótica situação dos estudantes das escolas públicas brasileiras.

Como funcionária de uma escola de rede municipal, posso dizer com toda segurança que as escolas no Brasil estão se transformando em verdadeiras fábricas de medíocres e, infelizmente, também de marginais. Para piorar a situação, ainda temos que amargar a visão de meninas de 12 anos parindo um filho atrás do outro ou com vida sexual ativa por já ganhar a vida como garota de programa.



Então você pode me perguntar: mas o que a Educação tem a ver com isso? E eu te digo com toda segurança: Tem tudo a ver.

A ausência de uma educação decente tem gerado pessoas incapazes de uma boa convivência, de ter respeito próprio, pessoas incapazes de discernir, de raciocinar de forma lógica. Estamos em uma sociedade infestada de pessoas intolerantes, que mal escrevem o próprio nome, não reconhecem seus direitos, não sabem que possuem deveres nem como cidadão nem como ser humano civilizado.

O retrato da realidade do município onde moro - Paragominas, uma cidade do interior do Pará com cerca de 100 mil habitantes - infelizmente não é diferente da realidade de outros Municípios brasileiros. E a localização destes é indiferente, tanto faz o Estado, a região e muito menos o número e habitantes. Mas aqui eu falarei apenas daquilo que vivencio. E o que tenho vivenciado nesses 14 anos de trabalho voltado à Educação nesse Município não tem sido nada positivo. É uma realidade mascarada que a conhecida frase "só para inglês ver" descreveria muito bem.

Falar de salários baixos dos professores e demais profissionais ligados à Educação - quase ninguém tem consciência, mas nem só de professores vive uma escola - é cair em uma mesmice que não nos levará a nenhum lugar. Pois não são só os professores que ganham mal nesse país. São muito mal pagos também os vigilantes das escola, as cozinheiras, as serventes, as bibliotecárias, os secretários escolares, enfim, o pedreiro que constrói as escolas, o coletor de lixo que que passa nas escolas todo santo dia, assim como os pais dos alunos que estudam nas escolas.

E eu estou sendo muito franca e realista quando digo que aumentar o salário dos professores e deixar esse profissional - que há algumas décadas vem sendo muito mal graduado - sem a menor consciência sobre a sua responsabilidade por vidas humanas, infelizmente não mudará em nada a Educação no Brasil.

As variações sobre o mesmo tema serão muitas nesta postagem que é na verdade um desabafo desta que aqui escreve. Pois os assuntos são muitos e a minha indignação não está me permitindo preocupação com coerência de parágrafos.

Eu me questiono todo dia - pelo menos duas vezes por dia, já que trabalho em dois turnos - qual é a vantagem em receber tantos prêmios por uma merenda escolar dita de qualidade, quando alunos comem sentados no chão, bagunceiros como papagaios, por nunca terem mesas e cadeiras  o suficiente para todos? É impressionante o poder por trás de uma premiação exposta na mídia diariamente como forma de persuasão.

Tudo bem, mas "a gente não quer só comida" (Arnaldo Antunes, Marcelo Fromer/Sérgio Brito).


Pelo menos um terço da comida que é oferecida nas escolas é desperdiçada pelos próprios alunos que a recebem de graça. Sim, pois em virtude da falta de educação, o povo brasileiro criou a concepção de que aquilo que é gratuito não tem valor e, por isso, pode ser desperdiçado ou mesmo jogado fora.

O Brasil tem um excelente e milionário programa de fornecimento de livros gratuitos para o Ensino Fundamental e Médio. Mas não possui um povo capaz de valorizar esse programa. Os livros, que deveriam ter um tempo de vida útil de três anos, muitas vezes não permanecem em bom estado de uso nem por quinze dias. E eu disse QUINZE dias.

Eu trabalho com distribuição de livros didáticos e, eu garanto, é no mínimo entristecedor entregar um livro recém saído da editora para um aluno e duas semanas depois vê-lo jogado em um bueiro qualquer ou atirado sobre o telhado da escola. E digo mais: não temos como punir esse aluno. Porque simplesmente nada nos respalda.

Não podemos cobrar que os pais do aluno ressarçam o livro , pois não temos lei que nos ampare nesse sentido. O aluno não pode ser expulso da escola porque sofremos pressão política, já que a presença deste - ainda que inútil - na escola significa dinheiro em cofres públicos.

O lema é: aprendendo ou não, o aluno precisa ser mantido na escola até o final do senso. Depois que o senso escolar chega até Brasília, tanto faz se aluno permanece ou não na escola. Isso já não interessa, contanto que ele volte a se matricular no próximo ano, está tudo certo. Em virtude disso, há um número enorme de repetentes por evasão em todas as séries, mas principalmente nos sexto e sétimo anos que são as séries com maior abandono escolar.

Os esforços políticos são incomensuráveis quando se trata de manter as aparências. Desde a pintura dos muros até a projetos absurdos como implantação do uso de quadros interativos, as chamadas lousas digitais. É claro que o absurdo não está no uso das lousas que, obviamente, são  muito úteis e versáteis. O absurdo está na implantação de um objeto caríssimo em escolas sem uma infraestrutura mínima como um refeitório com mesas e cadeiras em número suficiente para todos os alunos. Ou uma biblioteca com espaço de atendimento para pelo menos uma turma inteira.

E, falando em turmas, eis outra situação calamitosa: o número de alunos por turma, que aqui chega a 54 e mesmo a 56 alunos num espaço de 6X8m. Quer dimensionar o caos? Imagine-se em uma sala de aula com esse número de alunos sem condicionador de ar, uma acústica péssima e alunos ansiosos por definitivamente não estar ali naquele inferno - pois a maioria não tem a menor vontade de aprender e está ali por pura e simples obrigação, assim como também a maioria dos professores. Agora tente dar aula todos os dias nessa situação.

Ah, você não conseguiria? Pois é, quem está em sala de aula também não consegue. Mas aí está tudo certo, porque os professores fingem que ensinam e os alunos fingem que aprendem. E dessa forma todos os anos as escolas se despedem de milhões de alunos que terminaram o Ensino Fundamental ou o Médio com um belo certificado de medíocre em seus históricos escolares.



O que me levou a escrever um pouco sobre o caos educacional vivido no Brasil foi o evento Paralisação Nacional pela Educação, que ocorre no dia 16 de agosto desse ano, e a situação ditatorial sob a qual vive o funcionário público desta cidade onde resido. Em que, como se não bastasse o absurdo da proibição do veículo externo de notícias negativas sobre o Município, temos que nos submeter a imposição administrativa local de não apoiar o citado evento.

Para os que já foram afetados por esta caótica situação educacional, eu explico. Esta é a politicamente chamada "Cidade Modelo" da região Norte. É o Município que aparentemente mais cresce (na verdade incha), que mais se desenvolve em muitas áreas econômicas (como explicar tamanha rotatividade populacional?), com zilhões de prêmios para a merenda escolar (um terço dela vai parar no lixo), milhões de quilômetros de asfalto (com pouca durabilidade e nenhum saneamento básico), com lixeiras individuais para cada tipo de lixo espalhadas por toda a cidade (para que os coletores joguem tudo misturado nos caminhões de lixo e atirem tudo no lixão no fim do dia), consultas marcadas por telefone no Hospital Municipal (para sei lá daqui a quanto tempo, longas esperas por médicos que te atendem sem nem olhar na sua cara e mortes diárias que não podem ser noticiadas para continuar mascarando a realidade com estatísticas) e escolas com lousa magnéticas (só que sem manutenção e mal instaladas em salas de vídeo que são verdadeiros depósitos de quinquilharias ou salas pequenas que não possuem nem carteira confortável para que o aluno consiga passar ali mínimo 4 horas sentado).

Não, as notícias ruins não podem "vazar" de forma alguma. É preciso manter a aparência de Município perfeito. É por isso que aqui nós não apoiaremos o evento da Paralisação Nacional. Porque precisamos mostrar que aqui é diferente: aqui o professor ganha bem (se ele trabalhar 36 horas por dia), os alunos comem a melhor merenda escolar (e também jogam fora, brincam de guerra com biscoitos, futebol com maçã, enfrentam a fila do lanche para pegar um prato de rizoto de frango para jogar tudo pra cima porque é divertido jogar fora comida que é de graça), aqui o hospital funciona 24 horas por dia (mal e porcamente), aqui todos trabalham 8 horas por dia (porque uma lei municipal impede que o funcionário público exerça seu direito de trabalhar 6 horas diárias como garante a Constituição).

Aqui não precisamos discutir sobre a violência nas escolas porque é só de vez em quando que um aluno fura o olho do outro ou agride um professor. Aqui todas as crianças estão matriculadas nas escolas (se elas não frequentam e não aprendem nada é uma outra situação). Aqui a reprovação é mínima (porque o método avaliativo aprova até um débil mental e caso o aluno não alcance a média isso é rapidamente resolvido marcando uma reunião com os professores e explicando-lhes o quanto as estatísticas educacionais são diretamente proporcionais à manutenção de seus empregos). Aqui não apoiaremos a Paralisação Nacional pela Educação, porque no dia 16 de agosto se não comparecermos nas escolas os livros de ponto provavelmente terão alguns enfeites vermelhos em suas páginas.

Quem ainda ousa dizer que a Ditadura acabou no Brasil nos anos 80?

Ao menos aquela era explícita. Oxalá não venhamos a sentir saudades dela... oxalá eu não perca meu emprego ou seja rebaixada depois desse texto (como se já não fosse humilhante o bastante ser funcionário público mal pago e vinculado à Educação).

Enquanto isso, as fábricas de Neanderthais Contemporâneos (ler a postagem contida neste blog: Assim Caminha a Humanidade) continuam de vento em popa.

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