segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Bartolomeu Campos de Queirós





Viver sem ler Bartolomeu
É como viajar de avião
E só ter conhecido os aeroportos.

Morrer sem ter lido Bartolomeu
É não saber que é possível
Conhecer o paraíso sem ter morrido.


Pois ler Bartolomeu
É atravessar as fronteiras
Entre a realidade e a imaginação.


É entrar na dimensão dos sonhos...
A morada de todas as possibilidades.






"Minha mãe queria mudar a data do meu batizado. Ela combinava nascimento com sol mesmo sabendo que chuva é melhor para as sementes brotarem. Eu não era semente e nunca sonhei em brotar. Criar raiz, tronco, galho, flor, fruto era deixar de ser gente e virar árvore. É bom ser árvore. Ser verde é ser mar. Ter ninho é o mesmo que possuir concha. Ter ovos é ser dono de pérolas. Árvore abriga sem ser gaiola. Árvore e mar são irmãos gêmeos. É como clara e gema. Se a gente bater muito na clara ela vira suspiro."

"Melhor ser duplo. Um faz companhia ao outro, concordei. Nunca vou estar só. Desde meu nascimento aprendi a conversar comigo. Eu me falo e me respondo. acabo sempre brigando. Quero e não quero. (...) Bom mesmo era ser dois. Se eu fosse quatro, cada um teria que morar num ponto cardeal: leste, oeste, norte e sul. Juntos, eu viveria em guerra e perdendo a batalha."

"Quando o doce é por demais doce faz doer os ouvidos. Em Minas tem um doce de leite tão doce que deveria vir acompanhado de um remédio para dor de ouvido. Ele vem redondinho e enrolado em palha de milho amarrado com lacinho. Vende em loja de artesanato. Turistas devem gostar de dor de ouvido, pelo tanto que compram."

"Sal é também tempero. Tempera arroz, feijão, macarrão, carne e até dor. Se bem que minha mãe sempre fazia arroz-doce com casquinha de laranja. Arroz é muito humano, democrático, flexível. Arroz é gostoso com açúcar ou com sal. Arroz-doce é bom frio ou quente, duro ou molinho. Aceita o açúcar e o sal. (...) Quando a saudade da minha mãe me incomoda, eu como arroz-doce no bar da esquina."

"Lágrima é feita de água e sal. Isso mostra que existe um mar morando dentro da gente. Chorar é deixar o mar transbordar, eu fantasiava. Chorar é não querer morrer afogado. Chorar ajuda o mercuriocromo a curar mais depressa a ferida. Nunca perguntei à professora sobre as lágrimas. Tinha medo de escutar o que a 'ciência explicava'."

"Sendo de sal e açúcar, quem gosta de açúcar vai gostar de mim. E quem gosta de sal vai gostar ainda mais. E pra quem gosta de açúcar e sal eu viro arroz-doce. Vim ao mundo com a necessidade de ser amado. Eles diziam: 'Durma cedo que eu vou gostar de você',e eu dormia; 'Coma com a boca fechada que eu vou gostar de você', e eu comia; 'Escreva com a letra bonita que eu vou gostar de você', e eu escrevia; 'Deixa de chupar o dedo que eu vou gostar de você', e eu deixava. Tudo o que eu mais queria era ser muito amado."

"Do meu batizado ficou minha união com o céu e uma certidão que ainda não usei. Guardo em uma pasta junto com meu diploma de primeira comunhão. De vez em quando passo os olhos nela e minha memória acorda e confirma que estive mesmo presente em meu batizado."

"Não sei se vou precisar de certidão algum dia. Com 118 anos é difícil encontrar uma noiva. Quando fui servidor público me pediram todos os tipos de documentos: carteira de identidade, título de eleitor, carteira de trabalho, comprovante de residência, atestado de bônus, antecedentes, cópia do CPF e do número do PIS/PASEP, atestado de reservista, tipo sanguíneo, atestado de saúde, três retratos. Só não pediram certidão de batismo."

"Na certidão estão registrados os nomes do meu pai, da minha mãe, dos meus quatro avós, dos meus padrinhos. Todos já partiram sem deixar o endereço. A data do batizado continua errada. Nasci com 57 anos. Sou a soma de 34 com 23. Quando olho para o papel, amarelo pelo tempo, eu cismo em nascer de novo. Então brinco de faz-de-conta e escrevo."





Bartolomeu Campos de Queirós nasceu em 1944, em Minas Gerais. É considerado um dos melhores autores brasileiros infanto-juvenis. Já recebeu muitos prêmios por suas fantásticas obras.




Ler seus escritos é adentrar uma outra dimensão...
e se é outra, já está implícito que é diferente.
Mas não é apenas diferente: é inesquecível!
É surreal! É voar mesmo, com a alma!
É sair no escuro e voltar com a luz em si mesmo...
e com ela iluminar o mundo!



P.S.: Trechos da obra Antes do Depois, de Bartolomeu Campos de Queirós.







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