terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

A Tragédia além da Grécia








Já na mais remota antiguidade, os homens inventaram deuses, deusas, monstros e heróis. Admiraram seus reis e seus sábios e, às vezes, zombaram deles.

Sua imaginação fértil explicou muitos fenômenos naturais por meio de histórias maravilhosas: como poderiam compreender o ritmo das estações, o desaparecimento do sol no crepúsculo, as enchentes de um rio, a morte terrível, a cólera de um vulcão, sem recorrer as suas divindades? Por meio delas, tornou-se possível compreender tudo, explicar tudo. Assim os homens aprenderam a ter menos medo.

As divindades gregas também tinham poderes imensos. Apesar de imortais, eram animadas por sentimentos muito humanos. Nada era pior do que a cólera de Zeus, o grande deus do raio temível, que no entanto, vivia enredado em aventuras amorosas, para desgraça de sua esposa Era.

Os monstros assustadores, os pesadelos terríveis, os heróis de força e coragem sem igual nos encantam. Como Hércules, às voltas com seus doze trabalhos dos mais difíceis. Ou Teseu, que matou o Minotauro, o terrível monstro meio touro e meio homem.
Agora me afasto das lendas para me aproximar da realidade e citar aqueles que marcaram a história da Grécia. Entre os políticos extraordinários, Péricles talvez tenha sido o maior. No século V a. C. ele solidificou o caráter democrático de sua cidade e estimulou os artistas. Um século depois, Alexandre Magno, em apenas alguns anos, conquistou um grande império. E não podemos esquecer Sócrates, o filósofo, e Demóstenes, o orador.



Platão





Nem todos têm consciência, no entanto, apesar disso, não deixa de ser verdade o fato de que o mundo grego antigo exerceu e continua exercendo uma grande influência nas civilizações posteriores.





Seja através de sua Filosofia, sua Arte, sua Música, seu Teatro, a Grécia Antiga será sempre um marco importantíssimo na História da raça humana e, sem dúvida, um objeto de intermináveis estudos.







É certo que a sabedoria dos gregos antigos alcançará ainda muitas gerações. Como foi o caso da influência da Tragédia Grega na vida e nas obras de pensadores, filósofos, músicos, historiadores e autores, num período posterior a um extremo racionalismo vivido no mundo inteiro, tanto pela Ciência, ou mesmo pela Arte ou pela Filosofia.








O gênero trágico ressurgiu na Inglaterra nos séculos XVI e XVII, com autores como Christopher Marlowe (o verdadeiro autor de Fausto), que conferiu caráter heroico aos seus personagens, e William Shakespeare, que expressou de forma inigualável sua visão da capacidade humana de enfrentar as forças do destino em situações extremas.






No Século de Ouro espanhol, a tragédia foi cultivada por grandes figuras da literatura, como Pedro Calderón de la Barca. E uma nova espécie de tragédia surgiu no norte da Europa no século XIX com Ibsen, Strindberg e Tchekhov.



Johann Winckelmann




Outro influenciado pela tragédia grega foi Johann Winckelmann, um historiador das artes plásticas, nascido na Alemanha, em 1717. Criador da história da arte, Winckelmann, ao defender tanto a superioridade grega sobre a arte de todos os tempos quanto a necessidade de imita-la, foi o primeiro a dar ao classicismo alemão o seu ideal estético.


Em 1755, escreveu a obra “Pensamento Sobre a Imitação das Obras Gregas”, onde expôs duas teorias: a primeira de que o ideal da arte é uma nobre simplicidade e uma serena grandeza, tendo Apolo como modelo supremo da arte grega; e a segunda de que o único caminho para que os alemães se tornassem grandes e, se possível, inimitáveis, seria imitando os antigos. E, para Winckelmann, os “antigos” eram fundamentalmente os gregos.


Os conceitos de Winckelmann influenciaram Johann Wolfgang von Goethe. Alemão nascido em 1749, autor de obras como: Os Sofrimentos do Jovem Werther e Fausto.



Goethe




Em 1786, Goethe começa a valorizar a recuperação da harmonia clássica e a querer aproximar-se dela tanto pela reflexão teórica quanto pela criação artística. Escreveu que a natureza da arte é constante e imutável e que essa atemporalidade significa para ele que a arte é determinada por um ideal já encarnado em algumas obras do passado. Que o ideal de arte em estado puro já se encontrava nas obras de arte gregas. Pois, segundo Goethe, os gregos são “um povo que possuía por natureza a perfeição”, “uma perfeição inatingível”.



Schiller




Segundo Johann Christoph Friedrich von Schiller, Goethe seria um espírito grego perdido nas brumas do norte, no mundo nórdico. Um poeta clássico vivendo na modernidade.


Schiller, outro alemão nascido em 1759, também critica a modernidade a partir de uma reflexão sobre a origem. E a partir de 1792, escreve uma série de ensaios sobre a natureza da atividade estética. Mostrando como a arte pode ajudar o homem a atingir harmonia interior, mediante a “educação estética”.


Para Schiller, o homem moderno destrói ou esquece a natureza, se tornando assim um ser fragmentado, dividido e infeliz em sua experiência da humanidade. A Grécia, na qual a natureza e a humanidade eram unas em suas diferenças, é, para Schiller, o modelo de um acordo, o qual é preciso reconquistar.


Tanto Winckelmann, como Goethe e Schiller, têm um projeto de refletir sobre os gregos para repensar o mundo moderno e a obra de arte moderna. Assim como eles, Friedrich Wilhelm Nietzsche, filósofo alemão nascido em 1844, é também um pensador que entende melhor sua época por meio da Grécia Antiga. Por isso, escreve uma obra cheia de esperança em relação à germanidade, como ele mesmo diz.







Mas Nietzsche não aceita a caracterização da Grécia pela serenidade ou pela beleza, como se os gregos tivessem sido essencialmente apolíneos. Criticando os pensadores que permaneceram com essa visão do problema, Nietzsche relaciona a serenidade com um aspecto mais profundo da Grécia: o dionisíaco.


O Nascimento da Tragédia, obra de Nietzsche, é baseada em dois princípios: o Apolíneo e o Dionisíaco. Na apresentação do princípio apolíneo, encontramos a racionalidade e a ilusão num jogo perigoso orientado para os valores da verdade, do belo e do justo. Representa figuras bem delimitadas na sua individualidade, puras na sua beleza, caracterizadas pelo equilíbrio e pela harmonia. Representa também todos os valores tradicionalmente reconhecidos aos gregos.


Já o princípio dionisíaco, é o princípio de força e de luta, de desequilíbrio. Em vez de medida, delimitação, calma, tranquilidade, serenidade, o que se manifesta é a desmesura, a desmedida, a desintegração do eu, a abolição da subjetividade, o entusiasmo, o enfeitiçamento, o abandono ao êxtase divino, à loucura mística do deus da possessão.


No entanto, do que Nietzsche fala em O Nascimento da Tragédia, não é da rivalidade entre o apolíneo e o dionisíaco, e sim de sua aliança. Segundo Nietzsche, o que torna a arte trágica possível é a música, a palavra e a cena. Onde a música é o princípio dionisíaco, e a palavra e a cena, são o princípio apolíneo. São dois impulsos opostos, contraditórios. Mas são complementares na criação estética e universal.


Nietzsche afirma ainda que a tragédia apresenta apolineamente a sabedoria dionisíaca, para fazer o expectador aceitar o sofrimento com alegria como parte integrante da vida. Assim, fundada na música, a tragédia, expressão das pulsões artísticas apolínea e dionisíaca, é a atividade que dá acesso às questões fundamentais da existência.


Segundo Nietzsche: Winckelmann, Goethe e Schiller não conseguiram abrir a porta que dá acesso à montanha encantada do helenismo porque não usaram uma boa chave para isso: a música, melhor dizendo, a tragédia musical. Para essa afirmativa, Nietzsche se inspirou na concepção de Schopenhauer sobre a música e na ideia de Wagner sobre drama musical.


A originalidade de Nietzsche foi valorizar a música para pensar a tragédia grega como uma arte fundamentalmente musical, ou como tendo origem no espírito da música. O Nascimento da Tragédia estabelece a origem musical da tragédia grega, e sua importância como metafísica artística para tornar autêntica a arte wagneriana. Isso faz com que o renascimento do espírito dionisíaco tenha, para Nietzsche, como expressão mais forte o drama musical wagneriano.







Sendo assim, vendo em Wagner um novo Ésquilo, ou na ópera de Wagner o renascimento da tragédia grega, O Nascimento da Tragédia vai à arte trágica para explicar a arte wagneriana. E assim como a tragédia nasce da música dionisíaca, Wagner é o renascimento do dionisíaco, ou melhor, da tragédia grega na modernidade com sua obra de arte total. Baseado nisso, em 1870, Nietzsche escreve: “Reconheço na vida grega a única forma de vida; e considero Wagner como a tentativa mais sublime de ser alemão na direção de seu renascimento”.


Se O Nascimento da Tragédia é “um centauro nascido do cruzamento da arte, da ciência e da filosofia”, como disse Nietzsche, é em uma de suas passagens mais poéticas que se revela de modo mais veemente o tom militante em favor do renascimento do trágico pela força criadora do dionisíaco musical.


Esse tom militante insere o primeiro livro de Nietzsche no projeto de política cultural iniciado na Alemanha por Winckelmann, Goethe e Schiller, principalmente, e tinha, na época de Nietzsche, Wagner como seu principal representante.


Wilhelm Richard Wagner foi um compositor, dramaturgo e filósofo alemão, que tinha um dom especial para conseguir que as pessoas falassem dele. Era um homem de pequena estatura, doentio, com uma cabeça demasiado grande em relação ao corpo; sofria dos nervos e não tolerava sobre a pele qualquer tecido mais áspero que a seda.


Julgava-se um dos grandes dramaturgos do mundo, um dos grandes pensadores e um dos maiores compositores – uma combinação de Shakespeare, Platão e Beethoven. Conversador e terrivelmente tedioso, passar uma tarde com ele era ouvir durante horas e horas um interminável monólogo. O seu único tema de conversa era ele próprio.


Tinha suas opiniões sobre qualquer assunto e para tanto, escrevia inúmeros folhetos, cartas e livros, que publicava à custa dos outros. Como se isso não bastasse, sentava-se a lê-los à família e aos amigos durante horas.


Também escreveu óperas. E mal acabava de produzir uma, logo convidava, ou melhor, ordenava a admiradores e amigos que fossem a sua casa, a fim de lê-las em voz alta. Não fazia isso para ouvir críticas, mas apenas para escutar aplausos.


Tinha a estabilidade emocional de uma criança de seis anos; quando não estava contente, falava desatinadamente e batia com os pés no chão, ou afundava-se numa melancolia suicida, falando em partir para o Oriente e acabar seus dias como monge budista. Dez minutos depois, quando alguma coisa lhe agradava, corria à volta do jardim da sua casa, saltava sobre um sofá ou punha-se de cabeça para baixo.


Faltava-lhe o sentido das responsabilidades. Nunca lhe veio à ideia que tinha a obrigação de ganhar a vida. Estava convencido de que era o mundo que devia dar-lhe comida. Pedia dinheiro emprestado a toda gente. Escrevia inúmeras cartas solicitando empréstimos e chegava a oferecer ao suposto benfeitor o privilégio de contribuir para o seu sustento. Qualquer quantia que lhe chegava às mãos, gastava-as como um sheik árabe ou um rajá indiano. O menor projeto de pôr em cena uma de suas obras bastava para fazer-lhe abrir contas que superavam dez vezes mais a quantia que havia de receber pelos direitos de autor.


Em muitos outros campos não tinha escrúpulos. A sua primeira esposa passou vinte anos a perdoar-lhe as infidelidades; e enquanto roubava de um amigo aquela que seria a sua segunda mulher, escrevia a outro pedindo-lhe que sugerisse o nome de uma mulher rica – qualquer uma – com quem ele pudesse casar-se por dinheiro. A sua amizade pelos amigos baseava-se na utilidade que deles podia tirar. Era um verdadeiro gênio para arranjar inimigos. No fim de sua vida possuía um único amigo, que conhecera já na meia idade.


Tudo o que se escreve sobre Wagner, pode-se encontrar escrito em jornais, em informações da polícia, em testemunhos das pessoas que o conheceram, em suas cartas. Mas o mais curioso é que este homenzinho enfermiço, desagradável e fascinante tinha sempre razão.


Era, sem dúvida, um dos melhores dramaturgos da sua época, um dos maiores pensadores e um dos mais extraordinários gênios musicais que o mundo conheceu. Arrisco-me a dizer que, na verdade, o mundo devia-lhe o sustento.


Pois, quando consideramos que escreveu treze óperas e dramas musicais, dos quais onze são ainda postos em cena e oito figuram, sem discussão, entre as melhores obras músico-dramáticas de sempre, as dívidas e as dores de cabeça que fez sofrer aos outros não parecem um preço muito elevado.


As mulheres, cujos corações ele destroçou, morreram. E creio que o homem que não gostou de ninguém, além de si próprio, influenciado pela leitura assídua de Schopenhauer, remiu todas as culpas escrevendo Tristão e Isolda.


Ao ouvirmos a sua música não lhe perdoamos o que tenha sido, porque não é questão de perdoar. A única sensação que nos domina é o espantoso, por seu pobre cérebro e o seu frágil corpo não terem explodido, subjugados pelo tormento da força criadora que vivia dentro dele, lutando, arranhando, estrebuchando para libertar-se.


Mesmo para um gênio como Wagner, é quase um milagre ter podido fazer tanta coisa num espaço de setenta anos. Por isso não devemos surpreender-nos de que não tivesse tido tempo para ser verdadeiramente um homem.



As Obras de Wagner


Nenhuma melodia é mais conhecida do que os compassos iniciais do Coro Nupcial de Lohengrin, de Wagner. O Coro Nupcial, tantas vezes cantado ou tocado, hoje em dia, pouco antes da troca dos votos nupciais, aparece na ópera depois da cerimônia que une Lohengrin e Elsa, entoado pelo coral das damas-de-honra da noiva. Com Lohengrin, seu primeiro drama musical, Wagner concretizou o rompimento com a forma convencional da ópera.







No alto de um topo elevado e íngreme, que mal se discernem em meio à tempestade, elas esperam. Suas armaduras reluzem e seus corcéis recuam e avançam, à medida que, uma a uma, elas vão chegando um esse lugar ermo. São As Valquírias. Virgens guerreiras da mitologia teutônica, que dominam a segunda parte da ópera O Anel dos Nibelungos, de Wagner, um grande ciclo operístico em quatro partes. A Cavalgada das Valquírias inicia o terceiro ato da ópera e é muito ouvida como uma peça curta e sempre excitante.










Ao estudar a Grécia, nos “aproximamos” daqueles que, em 2.500 anos ou mais, inventaram quase tudo: a ciência, a filosofia, a política, o teatro, a democracia, a ideia de pátria, a tragédia...



E, como escreveu Nietzsche: “Coroai-vos de hera, tomai o tirso na mão e não vos admireis se tigres e panteras se deitarem, acariciantes, a vossos pés. Ousai ser homens trágicos: pois sereis redimidos. Acompanhareis, da Índia até a Grécia, a procissão festiva de Dionísio! Armai-vos para uma dura peleja, mas crede nas maravilhas de vosso deus!”



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