terça-feira, 24 de julho de 2012

Das mudanças necessárias...






Este é um assunto (e uma campanha) do tipo delicado.


Acredito em mudanças, pois estas são necessárias em muitas circunstâncias da vida. Mas há casos, como eu disse, muito delicados, então, é necessário paciência, discernimento, lucidez, empatia e um pântano no lugar do estômago (para abrigar todos os sapos que teremos que engolir) quando resolvemos abraçar uma causa.

É preciso lembrar que, muitas vezes, aquilo que parece viável para mim, pode não ser para o meu vizinho (ainda que de imediato isso nos pareça absurdo, incompreensível). Temos que lembrar que é possível que enquanto tentamos provar a veracidade de nossos ideais, estamos destruindo os ideais que movem toda a vida da outra pessoa, que não tem os nossos mesmos ideais (lembrar que a evolução ocorre de modo diferente entre as pessoas).

Obrigação de quem está adiante é ser paciente com quem não consegue te alcançar. Agressões não nos levam a nada e nem ajudam no ganho de nenhuma causa (por mais justa que esta possa ser).

Ler o marketing desta causa "Odeio Rodeios" (e todos os comentários que ela gerou na internet) me lembra muitas coisas, mas principalmente o selo de Município Verde da cidade onde vivo e todas as barbaridades, todas as falências empresariais e todas as famílias em ruínas em função do ganho deste citado (e importante) selo.

Não conseguiu fazer a ligação entre isto e aquilo? Muito bem, vamos tentar entender: Imagine que você sustente a sua família de, talvez, seis pessoas com a venda de carvão vegetal. Como é que se faz carvão vegetal? Faz-se derrubando e queimando árvores. E em sua vida inteira você só fez isso como trabalho. Aprendeu a fazer carvão com o seu pai, e este aprendeu com o seu avô.

De repente, alguém aparece em sua casa e diz que você não pode mais fazer carvão, que isto a partir desse dia é uma prática ilegal. Mas você só sabe fazer isso. Como você sustentará a sua família dali em diante?

Esta é apenas uma situação ocorrida aqui, no Município¹ onde vivo, para que se chegasse ao recebimento do selo do Município Verde, significando que (teoricamente) nele não há mais desmatamento.

No entanto, não basta que eu impeça que alguém pare de fazer carvão. Eu preciso dar uma explicação a essa pessoa. Dizer a ela (convencê-la) porque ela deve deixar tal prática, dar-lhe um prazo para que ela deixe seu antigo "ganha pão" e preciso (devo) oferecer outro meio de vida a essa pessoa, de preferência que seja melhor, para que ela queira deixar o antigo trabalho.

Se ao impedir alguém de trabalhar (não importa no que seja), tudo que eu ofereça em troca seja a mendicância, eu estarei contribuindo para a o aumento da pobreza e, consequentemente, da violência.

Pois bem... em se tratando de rodeios, estamos lidando com muitas coisas, muitas camadas da sociedade. Em alguns casos essas festas são a base da economia de algumas cidades. Existem dezenas de empresas que utilizam essas festas para promoverem seus produtos e fazerem vendas. São os chamados agronegócios. Há pessoas milionárias em função de rodeios. Existem homens que trabalham de sol a sol como vaqueiros em fazendas, que contam os dias para a chegada de uma festa de rodeio, onde ele será uma grande atração e ainda poderá ganhar muito dinheiro com isso.

Se você já acordou para o fato de que a vida não deveria girar em torno do capital, que as pessoas devem pensar mais no bem-estar do Planeta como um todo, que os animais precisam ser vistos de outra forma, ser tratados de outra forma, que ótimo! Mas você deve também lembrar que a maioria das pessoas NÃO pensa assim. Nós vivemos em um mundo dominado pelo capitalismo. Milhões de pessoas estão sendo dominadas midiaticamente todos os dias. As propagandas, as novelas, a inversão de valores quanto a ser artista está fazendo com que as pessoas acreditem cada dia mais no poder do dinheiro e da fama a qualquer custo.

E eu não estou aqui querendo com isso dizer que não há validade em campanhas como essa do "Odeio Rodeio". Elas precisam (têm que) ser feitas, mas também precisam ser melhoradas. Seus criadores precisam, (mais do que vontade de mudar as situações) ter paciência, muita paciência durante o percurso da mudança (qualquer que seja ela), além de empatia com relação aos que precisam ser modificados. Mudar não é fácil para ninguém.

Quando eu decidi parar de comer carne, eu tive que substituí-la em minha alimentação. Para isso eu li, pesquisei, tirei dúvidas. Quando eu decidi optar pela bicicleta como veículo diário, eu tive que preparar o meu corpo (treinei semanas antes de usá-la todos os dias), me adaptar ao trânsito, acordar mais cedo, proteger-me do sol, entre outras coisas. Não foi fácil para mim e foi por livre  e espontânea vontade. Imagina como deve ser difícil para quem ainda precisa ser convencido da mudança?


Toda mudança requer informação, adaptação e substituição. E o tempo que levamos nos adaptando ou buscando o substituto, pode variar muito. O processo muitas vezes é dolorido (dói no corpo, dói na alma, dói em muitos aspectos), mesmo quando queremos fazê-lo. Imagine quando o outro reluta?



Mais uma vez, obrigada aos criadores da campanha Odeio Rodeio pela oportunidade.




¹ Paragominas, no Estado do Pará, foi o primeiro Município Verde da Amazônia.


Escrevo porque eu vivo.
A cada texto escrito,
há um novo renascer de minha alma...
Porque se não escrevo,
eu morro.

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