segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Horário Eleitoral Gratuito... e os meus reparos






A maior fonte de sustento


De qualquer sistema político


Está em uma população

Completamente imune

Aos poderes da Semiótica.









A prática do populismo, no Brasil, é uma técnica de ação política que, através de setores dominantes ligados à intensificação da industrialização, manipula a participação de amplas camadas populares urbanas no cenário político.
E, embora alguns cientistas políticos defendam a ideia de que a deposição de João Goulart, em 1964, tenha marcado o fim do populismo no Brasil, é mais do que notória a sua influência no atual panorama político, social e econômico deste País.







A política populista caracteriza-se menos por um conteúdo determinado do que por um "modo" de exercício do poder, através de uma combinação de plebeísmo, autoritarismo e dominação carismática, no sentido estabelecido por Max Weber.

O termo populismo é utilizado para designar um conjunto de práticas políticas. É um poderoso mecanismo de integração das massas populares à vida política, que até favorece o crescimento econômico e social, mas que deixa essa integração completamente subordinada a um enquadramento estritamente burguês, estabelecendo uma relação direta entre as massas e o líder carismático, o qual age como um tampão entre as massas e o aparelho de estado. Desse modo, o "povo", como categoria abstrata, é colocado no centro da ação política, independentemente dos canais próprios da democracia representativa.

Para ser eleito e governar, o líder populista procura estabelecer um vínculo emocional (e não racional) com o "povo". Isso implica num sistema de políticas ou métodos para o aliciamento das classes sociais de menor poder aquisitivo, além da classe média urbana, como forma de angariar votos e prestígio (legitimidade para si) através da simpatia que o político obtém das classes.

Políticos populistas usam e abusam do carisma pessoal, muitas vezes dos discursos melodramáticos e do uso da propaganda massiva. Pois, para garantir sua estada no poder pelo tempo que lhes convier, precisam mostrar repetidamente os seus supostos feitos aos eleitores, que acreditam ser o trabalho político um favor que este lhe está fazendo.

Utilizando-se do vínculo emocional com o povo, é possível fazer uso de algo que tem se tornado bastante comum no Brasil: a política habitacional com a intensão de valorizar áreas estratégicas e, hierarquicamente, segregar a cidade. Para ampliar a área central, já tão congestionada, começa-se a construir bairros cada vez mais distantes, com uma infraestrutura aparente e casas a preços muito populares. Atrai-se para estas áreas a população carente - que, muitas vezes, por algum motivo acabou ocupando até mesmo áreas nobres da cidade - para, depois disso, fazer grandiosas obras nesses lugares que foram desocupados com o intuito de valorá-los.

Esta é uma prática que está se tornando bastante comum no País inteiro, beneficiando apenas as classes A e B. Já que "a segregação espacial reflete a divisão da renda e se traduz, notadamente, pelo acesso desigual às infraestruturas e ao solo construível" (SACHS, 1999, p. 57). Isso faz com que a população não tenha como lutar contra essa situação de exclusão habitacional, pois não possui uma promoção pública adaptada a ela, sendo assim completamente excluída do mercado imobiliário regular. O resultado disso é uma população hierarquizada e segregada.

Essa situação é camuflada com obras públicas que, aparentemente, são acessíveis a todas as classes. Ação que convence de fato uma população ignorante e imune aos poderes da imagem e da aparência, tão utilizadas pelo populismo atual através dos meios televisivos como forma de dominação.



A Estação das Docas, em Belém - PA, é um bom exemplo de obra (dita) pública usada para camuflar uma política de segregação da sociedade. Ou alguém acredita que as classes D e E possam ir com a família tomar um sorvete na sorveteria mais famosa e cara da cidade? Nem vou citar os restaurantes aí instalados.


Bem, historicamente, o termo populismo acabou por ser mais identificado com certos fenômenos políticos típicos da América Latina, principalmente a partir de 1930, quando esteve associado à industrialização, à urbanização e à dissolução das estruturas políticas oligárquicas, que concentravam firmemente o poder político na mão de aristocracias rurais.


É por isso que, no Brasil, a gênese do populismo está ligada à Revolução de 1930, que derrubou a República Velha oligárquica, colocando no poder Getúlio Vargas, que viria a ser a figura central da política brasileira até seu suicídio, em 1954.


Mas não é apenas Getúlio Vargas que pode ser considerado uma referência do populismo. Também temos outros nomes, como Juscelino Kubitschek, Jânio Quadros e João Goulart, que também figuram como representantes deste modelo na época.

No entanto, as características do populismo seguem inspirando hábitos e comportamentos de líderes políticos, podendo ser considerado o mecanismo mais representativo em seus modos de governar. Como exemplo, pode-se citar o ex-presidente Lula, que incorpora aspectos populistas a seu  governo, desse modo mantendo altos os índices de popularidade no Brasil, bem como destacando-se no cenário político internacional (já que não são apenas os governantes brasileiros os adeptos deste mecanismo político).

Por seu caráter reacionário e desmobilizador, desde a sua origem o populismo foi encarado com desconfiança pelas correntes políticas mais ideológicas, pois tudo passa a depender da vontade de um déspota. Em um município, esta atitude, por exemplo, torna inúteis os cargos de vereador, secretário, ou mesmo de sindicalistas, já que, graças a uma ditadura disfarçada de democracia, todas as decisões são tomadas pelo administrador local, também conhecido por prefeito. Em uma nação, torna inúteis governadores, deputados, ministros... torna inútil até o próprio povo, que é quem os elege e nem se dá conta disso. 

O populismo é perigoso e devastador. Tanto que um dos menores estragos causados a uma nação por esta prática política é fazer com que seu povo perca a noção de democracia e mesmo deixe de saber quais sejam os partidos de esquerda e de direita em seu País, pois um político populista quando delega poderes ou dá opção de escolha, sabe exatamente o que está fazendo. Como isso é possível? Observe as imagens abaixo e leia as legendas.


O governo, através da mídia, faz com que a população acredite que voto obrigatório é um direito. Se assim o fosse, por que então eu não tenho o direito de não votar? Isso não é Democracia!

O Governo, através da mídia, faz com que a população acredite que o político conhece todas as suas necessidades. Isso é um método muito eficaz no sentido de fazer com que uma população se torne apática, vivendo de migalhas e completamente imune aos poderes de sedução de um político populista.


Ainda não entendeu? Bem... Imagine que um suposto governante de um País, chamado também de presidente, comece a tomar atitudes moderadas como a ideia de reformar o capitalismo democraticamente através da regulação estatal (situação na qual o Estado, através de leis, portarias e intervenções pela política econômica e pelos órgãos públicos direta e indiretamente, regulamenta e intervém na vida econômica de uma nação) e da criação de programas que (supostamente) diminuam ou eliminem as injustiças sociais inerentes ao Capitalismo, tais como Bolsa Família, Programa de Erradicação do Trabalho Infantil (PETI) e o Programa Luz para Todos.

Imaginou? Pois bem, essas são características de governos sociais-democratas, considerados direitistas (ao menos de uns anos para cá), como o caso do partido PSDB. No entanto, essas também foram características do antigo governo do ex (ao menos teoricamente) presidente Lula e do atual governo da (ao menos teoricamente) presidente Dilma, ambos considerados esquerdistas, já que são políticos filiados ao PT (Partido dos Trabalhadores - ao menos teoricamente).

Mas, como um governo pretende diminuir ou eliminar as injustiças sociais de um País através de programas assistenciais, se ele mantém como sistema econômico justamente o Capitalismo, que tem como principal característica a diferença de classes? Num sistema de governo capitalista não há como não existir injustiça social!

Políticos de esquerda têm (ou pelo menos deveriam ter) como meta em seus governos a substituição do Sistema Capitalista por um sistema econômico cujos trabalhadores tenham propriedade coletiva dos meios de produção. No entanto, o que se vê é uma proliferação cada vez maior do Capitalismo e da política assistencial, aumentando a cada dia as diferenças sociais e a dependência financeira das classes D e E em relação a um governo que utiliza das políticas de assistência para se manter no poder.

O Governo veste uma fantasia de política de esquerda tomando atitudes de política de direita e ninguém se dá conta. Conseguiu entender agora?

Um povo que não recebe educação de qualidade, que não tem noção da importância da leitura para a aquisição de informações o suficiente para que ele tenha um bom entendimento sobre o funcionamento das coisas, seja lá de ordem forem as coisas; um povo que não possui senso crítico, que não valora o saber político, jamais conhecerá ou saberá reivindicar os seus direitos, jamais reconhecerá o populismo em seus governantes, jamais terá noção de que pode e deve lutar contra as injustiças sociais e correrá sempre o risco de ser ludibriado e de ser tratado de forma injusta.

O que me levou a escrever esse texto foi o fato de eu ter assistido na TV ao horário político gratuito dos candidatos da cidade onde moro, Paragominas, no Pará. Pois, como a maioria deve saber, este ano de 2012 corresponde a um ano eleitoral, em que todas as cidades do País terão que eleger um Prefeito juntamente com um vice, bem como alguns vereadores, cujo número pode variar de uma cidade para outra.

Muito me chamaram a atenção os vídeo que estão logo abaixo.









Em ambos os vídeos há o uso estratégico e proposital da Semiótica. Ouçam a música do primeiro vídeo. Foi usada uma canção ao som de violão, que faz gerar gradativamente alegria, determinação e confiança em quem a ouve. A Musicoterapia tem poderes impressionantes.

Notaram as imagens estratégicas? Imagens escolhidas "a dedo": alegria, sorrisos, muita criança, bebês no colo, tudo para dar ao espectador a sensação de bem-estar, proteção, cuidado. O texto é mínimo, duas frases no final, pois, neste caso, as imagens devem transmitir a mensagem. Quem vê as imagens acredita piamente que trata-se de uma cidade perfeita.

Vejam também o segundo vídeo. Também muito bem feito. O texto foi muito bem elaborado. Notem como foram trabalhados os sentimentos do interlocutor: a tranquilidade, a postura, a auto-confiança. Notem a música de fundo. Além da confiança, tão necessária ao convencimento, ela ainda transmite tranquilidade. Não duvidem nem por um minuto, cada detalhe foi pensado. O ambiente é tranquilo. Notem as cores claras, usadas para acalmar. Observem a quantidade de livros atrás do interlocutor nos remetendo à importância da cultura e da educação, algo que ironicamente não é acessível à grande massa, mas isso não vem ao caso, pois o objetivo do vídeo é outro.

Como é notório, a batalha é duríssima para quem decide competir com esse exército "fortemente armado". Vale ressaltar que as armas são poderosíssimas. E não são outras senão: CONHECIMENTO, DINHEIRO e PODER.

É só quando podemos enxergar o mal uso dessas armas que conseguimos entender por que não existe educação pública de qualidade nos países de terceiro mundo (e também nos de quarto e quinto). Não existe interesse no sistema capitalista em te fazer enxergar a realidade. Em te fazer ver além da imagem apresentada. Em te fazer ler nas entrelinhas. É conveniente a alienação geral.

E, para ir de encontro a tudo isso, o que temos?

Temos o desespero regado à inexperiência, à falta de conhecimento, à falta de dinheiro e consequentemente - já que o Capitalismo está aí - à falta de poder. Pois a oposição, nesses casos, tende a ser composta por pessoas de baixa escolaridade e, quando alguns poucos possuem uma mísera graduação, lhes falta letramento. Lhes falta leitura. Lhes falta conhecimento. Lhes falta principalmente o apoio dos poderosos para que possam fazer um "vídeo bonito" e então fazer com que a população lhes dê ouvidos.

E o resultado da ausência de tantos itens é algo extremamente catastrófico, posso lhes assegurar. Pois uma oposição não letrada, sem conhecimento, que discursa mal, que tem cara de fome e que ameaça uma população alienada de retirar do poder o seu político carismático e sedutor, infelizmente, não é capaz de convencer nem a sua própria classe. Eu gostaria de fazer uma comparação entre os vídeos de propaganda dos dois candidatos, mas, infelizmente, eu não encontrei disponível nenhum vídeo do candidato que se opõe à atual administração deste Município. Eu apenas o assisti na TV e devo dizer que não há no material um só interlocutor que tenha poder de convencimento.

A população jamais confiará em caras desesperadas, que querem promover a mudança sobre algo que está aparentemente (eu disse: aparentemente) perfeito. Porque num mundo movido a imagens, ter que lutar contra elas quando estas mostram ao povo somente o que ele estrategicamente precisa ver, é enfrentar a pedradas um exército fortemente armado.

Já não é possível mobilizar uma população usando como atrativo apenas uma bandeira vermelha. Porque, infelizmente nos tornamos letárgicos. Somos um povo comodamente revoltado, que amanhece, come, trabalha e adormece indignado, mas que não não move um dedo para mudar a situação porque não temos opinião sobre nada. Somos um povo sem saúde, sem educação, sem moradia, sem um poder aquisitivo descente nem sequer para alimentar-nos de forma saudável. Trabalhamos de sol a sol em busca de sobrevivência!

Desse modo, não há como fazer com que esse povo pense em Política, em Semiótica, em Saneamento Básico, em entretenimento saudável, em melhoria do transporte público, em um atendimento digno nos hospitais... E esse povo não pensa porque a televisão está aí cumprindo o seu papel alienador, dizendo todos os dias a essa população como ela deve viver: que deve se conformar com o que tem, que ser feliz é ter muitas garrafas de cerveja para tomar, é vestir-se como a atriz de determinada novela, é comprar um carro em dezenas de prestações ainda que o motorista não tenha noção de valor sobre a vida, etc, etc, etc.

Somos um povo atormentado pela violência que, muitas vezes, quando não podemos com ela, infelizmente, juntamo-nos a ela para não morrermos por causa dela. Uma população cuja cultura do desperdício contribui cada vez mais para a destruição do Planeta, porque lá na TV dizem que a sua qualidade de vida é medida pelo seu poder de consumo, então "vamos consumir cada dia mais em busca da felicidade"! Um povo que tem jogada em sua cara uma corrupção constantemente impune e que, a exemplo das atitudes corruptas de seus governantes, na primeira oportunidade faria exatamente o mesmo e o faz na forma do desperdício e do vandalismo. Uma população que faz do futebol e do sexo os meios de fugir de sua dor e de extravasar as suas frustrações. Uma população que não enxerga um palmo diante do nariz porque está ocupada demais tentando não morrer de fome, ou trabalhando cada vez mais para adquirir o que disseram a ela que é imprescindível para sua felicidade: bens de consumo.

Vivemos num Planeta cujos recursos naturais são limitados. Não há espaço para ganância. Não há espaço para o desperdício. Não há espaço para divisão de classes. Vivemos na mesma casa, somos todos iguais, temos todos os mesmos direitos. Portanto, já está mais do que na hora de nos livrarmos desses sistemas de governo que só intensificam as diferenças e exploram o Planeta em benefício de uns poucos 'gatos pingados'. Já é tempo de saber escolher. E, muitas vezes, o saber escolher começa por simplesmente saber aquilo que não queremos. E saber o que eu não quero é, por exemplo, olhar para A e B e, se por acaso nenhum dos dois me agradar, eu poder simplesmente decidir não escolher nem A nem B.

É preciso aprender a criar a "alternativa NRA" (Nenhuma das Respostas Anteriores) sempre que nos apresentarem opções. Pois precisamos aprender a rejeitar todas as alternativas ruins e não continuar optando pela famosa "menos pior". Porque rejeitando todos os piores, uma hora algo melhor vai surgir. Precisamos aprender a acreditar e a querer buscar algo melhor. Porque somos seres humanos. Somos seres pensantes e não máquinas de fabricar dinheiro para manter o luxo de alguns poucos.




Aos que já despertaram, por favor, se levantem e andem. Porque a rebeldia deve surgir daqueles que comem todos os dias. "Porque se temos que morrer, pelo menos morramos todos lutando por um ideal nobre e não consumindo-nos como uma brasa" (Julio Anguita Gonzalez).



(by Alessandra Garuzzi)



Para saber mais (basta clicar sobre a frase):
Sem reforma urbana, não se resolverá habitação
- Letramento e Alfabetização
Só Brasil paga salário a vereador 
- Música e Musicoterapia
- Ensaio sobre a Cegueira - José Saramago
- Ensaio sobre a Lucidez - José Saramago
Le Peuple de l'Herbe - Parler le fracas
Noam Chomsky e as 10 Estratégias de Manipulação Mediática
Fernando Meirelles: ‘Nossos sonhos não cabem no capitalismo’

Referências:
NOVA Enciclopédia Barsa. São Paulo. Encyclopaedia Britannica do Brasil Publicações, 1998.
SACHS, Céline. São Paulo – Políticas públicas e habitação popular. São Paulo: Edusp, 1999.























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