terça-feira, 30 de abril de 2013

E seguimos vivendo...










Todos os dias, nós tentamos com todas as nossas forças fazer de conta que não somos aquilo que odiamos em nós. É algo que o nosso ego tenta provar todos os dias. Pois, estando constantemente ferido, o ego faz com que essa seja uma atitude vital para sua existência. E, estando ferido, na tentativa de se defender, o ego esconde, ou tenta esconder, tudo aquilo que acreditamos que seja inaceitável sobre nós mesmos. Para isso, o ego nos constrói uma máscara para que com ela possamos provar às pessoas que nós não temos tantos defeitos, que não somos tão inferiores assim, que não somos tão sem valor assim, que não somos tão maus como tememos ser.





A admissão de que possui falhas é um ato extremamente difícil para qualquer pessoa. E, como um ato de defesa, a partir de nossa infância, damos início à criação de um personagem e, com a ajuda dele, assumimos um papel através do qual acreditamos ser possível receber o amor, a atenção e a aceitação que tanto necessitamos. E assim, durante toda a nossa vida, nos escondemos incontáveis vezes atrás de nosso personagem-protetor na tentativa de ocupar o espaço que queremos. 


Observe qual a máscara que você usa (ou quais as máscaras) com a intensão de chegar ao lugar que você almeja. Lembre-se dos muitos momentos nos quais você foi agressivo, ou foi um típico machão, ou a boazinha que aceita e faz tudo para agradar, ou quem sabe um frio sedutor para usar e abusar das mulheres, talvez tenha sido a mulher sexy a arrastar todos os homens atrás de si como cães insaciáveis, ou o sério e intelectual como tentativa de impôr respeito, o responsável que assume apenas o que os outros esperam de você, a rígida sempre cheia de normas a seguir, o palhaço com a obrigação de divertir e fazer rir a todos, o ético que no fundo quer mandar tudo pelos ares e só fazer aquilo que te convier. 

Constantemente, e muitas vezes de modo quase inconsciente, nós usamos a nossa máscara (ou as nossas máscaras). E, embora acreditemos que seja somente para alcançar algo, o objetivo maior é fugir de algo. Na tentativa de fugir, a nossa máscara (ou nossas máscaras) se torna o nosso cárcere. O calabouço no qual prendemos tudo aquilo que consideramos ruim e que não queremos mostrar ao mundo. Tentamos esconder do mundo o nosso sofrimento, a nossa tristeza, a nossa amargura, o nosso arrependimento por ter tomado esse e não aquele caminho. Tentamos esconder o nosso ego ferido. E todos os dias nos negamos a enxergar que, dentro do calabouço, os nossos lados que, ao serem julgados pelas pessoas como coisas ruins, más ou erradas, estão desesperadamente querendo sair. Os nossos lados, julgados por nós e pelos outros como imprestáveis e desprezíveis precisam, têm necessidade de se sentirem aceitos, livres e amados como qualquer outra parte existente em nós. 

Quando negamos ao nosso lado obscuro o direito de existir, aos poucos vamos lhe dando forças para crescer e, desse modo, o ampliamos. Ampliamos o nosso lado sombrio que se torna forte o suficiente para destruir não apenas tudo aquilo que somos, mas também tudo aquilo que, a nossa volta, são os outros. Vamos inflando e tornando cada vez maior o nosso ego, que vai aos poucos nos escondendo, tornando-se maior do que somos e massacrando a todos que cruzam o nosso caminho. E assim, como quem tenta afundar bolas na água, vamos tentando afundar (esconder) tudo aquilo que não nos agrada em nós. Nos esquecendo completamente que, a qualquer momento, tudo pode vir à tona, explodindo tudo em nossa cara quando menos esperamos. 

Não nos damos conta de que somos seres contraditórios. Precisamos ser. Passamos a vida em meio a ambiguidades e paradoxos e não reparamos. Aquilo que por uma vida inteira nos tornamos é a consequência das contradições que, ao longo de nossa existência, vivenciamos. Estamos constantemente entre contradições como passado e futuro, bem e mal, positivo e negativo, amor e desamor, alegria e tristeza, claro e escuro, prazer e dor. Afinal, se eu preciso conhecer a enfermidade para saber o que é ter saúde, por que então querer, desejar ter apenas um lado positivo, ser totalmente bom, estar sempre feliz, sempre perfeito? Ou então, por que ter a visão deturpada de que algo ou alguém tem apenas um lado ruim, negativo, se precisamos de ambos os lados para não somente conhecê-los como também, entre eles, encontrar equilíbrio? 

Precisamos de ambos os lados para crescer, para evoluir, para conhecer-nos. Nossa harmonia reside na existência de nossas ambiguidades. Tudo se desenvolve melhor entre luz e sombra. O equilíbrio ocorre entre a tua luz e a tua sombra, ou entre a luz e a sombra daquilo ou de quem está ao seu redor. Porque tudo tem e precisa ter dois lados. Você só vai saber se está sendo educado se antes conhecer a rudeza. Só vai saber que está sendo amado se antes não o foi. Só saberemos o que é o amor se antes conhecermos o desamor. Porque apesar de todo o nosso menosprezo pelo nosso lado negativo, nosso maior medo não é que tenhamos apenas ele, o lado sombrio. Nosso maior medo não é que sejamos maus, ou incompetentes, ou inaceitáveis, ou feios, ou pouco atrativos. Nosso maior medo é que sejamos justamente o contrário disso tudo. 

O nosso maior temor é a felicidade. Porque não nos sentimos preparados para estar, de facto, bem. Porque estamos sempre esperando pagar com o choro a gargalhada que demos. Estranhamos muito quando passamos um bom período saudáveis, pois, se isso aconteceu, muito provavelmente teremos um período em que estaremos muito enfermos como forma de pagarmos pela saúde que tivemos. Vemos o lado negativo como o lado punitivo. O mal é a punição. E assim seguimos nos esquecendo de que existe divindade em nós. Nós não apenas estamos no Universo como também o trazemos em nós. E se há harmonia no Universo, por que não pode haver em nós? 

Sim, existe lado escuro, negativo, existe obscuridade em nós. Mas é preciso lembrar que também existe luz. E que o negativo não é uma punição. É apenas parte do todo. Tal como na história do Buda de Ouro¹ coberto por argila, possuímos uma casca grossa que, felizmente, nos protege do mundo, mas que infelizmente também nos impede de ver (e que vejam) o tesouro que temos em nós. Nos impede de ver que escondemos ouro sob a nossa capa de barro. O que temos que fazer é remover essa casca, ainda que aos poucos. E, à medida em que vamos conhecendo o tesouro que somos, vamos aprendendo a perdoar aquilo que nós não somos, aquilo que não aprovamos em nós, que é exatamente o que nos constrói as nossas máscaras, a nossa grossa casca. Máscara e grossa casca que se por um lado nos protegem, por outro lado também nos escondem até de nós mesmos. 

Conhecermos e aceitarmos o que nós somos, nos ajuda a nos dispormos a remover a nossa casca, a perdoarmos o que somos e o que não somos, o que fizemos e o que não fizemos. Nos ajuda a perdoar a nós mesmos de nossos medos, angústias, de nossos traumas mais profundos. A perdoar-nos por não havermos terminado aquela faculdade, por termos maltratado a irmã ou o irmão, por odiarmos o nosso corpo, por não suportar os nossos pais. Aprender a perdoar-nos por não sermos bons o bastante, por não termos amado o suficiente para querer ficar quando nem queríamos ter ido ou voltado, por gritar com os nossos filhos, por termos sido tão estúpidos, por havermos tomado esse e não aquele caminho e descobrirmos no final que estávamos errados. Aprender a perdoar-nos por havermos desistido, por não suportarmos a pressão, por havermos sido incompetentes, por havermos descoberto no último instante que não era aquilo que queríamos e decidir abandonar tudo. Aprender a perdoar-nos por sermos gordos, magros, brancos demais, negros demais, por sermos baixos ou altos demais, feios ou tão bonitos que constrangemos os outros. A perdoar-nos por sermos exigentes demais até conosco, porque fomos levianos e roubamos, enganamos, usamos as pessoas em benefício próprio, por sentirmos inveja, por não sermos capazes, por sermos pobres e termos tanta dificuldade, por sermos ricos e não termos dificuldade alguma, por não termos nenhuma sorte ou tê-la em demasia. Aprender a perdoar-nos por beber demais, por não sermos pacientes o bastante, por não termos tempo, porque perdemos a hora, porque adoecemos logo naquele período complicado, por não suportarmos a carga toda de uma vez. Aprender a perdoar-nos por tudo. Porque o maior presente do perdão é a liberdade que ele nos dá.

Conscientizemo-nos de que foi o nosso passado, com todos os erros e acertos que nós cometemos nele e também os erros e acertos que cometeram conosco, o que nos permitiu ser o que somos hoje. Que nós possamos viver de modo a, antes, aprender a honrar a nós mesmos e depois as pessoas, de poder conectar-nos com elas no nível mais vulnerável e mais profundo da alma e de ter que pedir cada vez menos perdão tanto a nós como aos outros. Aprender que tudo aquilo que pensamos estar fazendo ao que está ao nosso redor ou a quem está ao nosso lado, na realidade, é a nós mesmos que estamos fazendo. Aprender que quando afirmamos não saber ou não conseguir amar a ninguém, é porque não aprendemos a amar a nós mesmos antes de qualquer coisa. Quando chegarmos a isso, já estaremos sabendo conectar-nos a nós mesmos. Ato primordial para podermos conectar-nos aos outros. E que aprendamos a ser gratos por tudo isso, sempre.






¹ - Nos idos de 1957, um grupo de monges de um monastério precisava transferir um Buda de barro de seu templo para um novo local. O monastério teria que ser transferido para ceder espaço à construção de uma autoestrada que atravessaria Bangkok. Quando o guindaste começou a sustentar o ídolo gigantesco, seu peso era tamanho que ele começou a rachar. E, como se isso não bastasse, começou a chover. O monge superior, que estava preocupado com os danos que pudessem ocorrer ao Buda sagrado, resolveu devolver a estátua ao chão e cobri-la com um grande encerado de lona para protegê-la da chuva. 

Mais tarde, naquela noite, o monge foi verificar como estava o Buda. Acendeu sua lanterna sob o encerado para ver se o Buda continuava seco. Conforme a luz incidiu sobre a rachadura, o monge notou um pequeno brilho e achou estranho. Ao olhar mais de perto o reflexo da luz, perguntou-se se poderia haver algo sob o barro. Foi buscar um cinzel e um martelo no monastério e começou a retirar o barro. À medida que derrubava fragmentos de barro, o pequeno brilho se tornava maior e mais forte. Muitas horas de trabalho se passaram até que o monge se deparou com o extraordinário Buda de ouro maciço. 

Os historiadores acreditam que algumas centenas de anos antes da descoberta do monge, o exército dos birmaneses estava prestes a invadir a Tailândia (chamada então de Sião). Os monges siameses, percebendo que seu país seria logo atacado, cobriram seu precioso Buda de ouro com uma camada externa de barro, a fim de evitar que seu tesouro fosse roubado pelos birmaneses. Infelizmente, parece que os birmaneses massacraram todos os monges siameses, e o bem guardado segredo do Buda de ouro permaneceu intacto até aquele fatídico dia em 1957.





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