sábado, 18 de maio de 2013

Dos transes matinais dos meus esperançosos dias...












Não te vás por uma hora porque então

nessa hora se juntam as gotas do desvelo

e talvez toda a fumaça que anda buscando casa

venha matar ainda meu coração perdido


Ai que não se quebrante tua silhueta na areia, 

ai que não voem tuas pálpebras na ausência: 

não te vás por um minuto, bem-amada, 


porque nesse minuto terás ido tão longe 

que eu cruzarei toda a terra perguntando 

se voltarás ou se me deixarás morrendo. 


Pablo Neruda





Pois é...
E Neruda me fez ver que, por causa da minha louca ânsia de amar, talvez eu nunca tenha de facto amado os meus objetos de amor. Talvez eu só tenha amado a possibilidade de estar em estado de amor.

Então Neruda me fez ver que eu preciso de um amor para o qual eu possa finalmente me dedicar, me doar, me entregar de corpo e alma. Um amor com o qual eu me sinta livre para ser assim, sublime, delicada, sutil, quase seda na pele.

E em Neruda eu enxerguei não só a minha sutileza. Porque a mim não me basta ser sublime. Como boa extremista que sou, eu iria fatalmente de um ponto a outro. Portanto eu seria também exagerada.

Porque não basta sentir saudade. É preciso morrer de saudade. Não basta estarmos os dois a sós entre quatro paredes. É preciso estarmos nós dois e nenhuma parede. Porque o mundo desintegrou fora de nós. E nesse momento de solidão amorosa só existimos nós dois e mais nada.

E não basta ser apenas exagerada. É preciso haver exagero ao ponto de ser dramática. Dramática no sentir, no dizer, no expressar. Dramática no mostrar o amor que não só me corrói por dentro, ou por fora, mas que também e principalmente me transcende, me transborda e me enleva a alma. O drama exagerado do amor que nos faz percorrer distâncias absurdas e fazê-las parecer o dobrar de uma esquina.

Amor que faça valer o mover do meu mundo... E como o amor me move o mundo! Tem que me fazer livre para que de modo sublime, e também em extremo exagero, e num drama grego (regado a Nietzsche e Wagner), eu possa revirar também o mundo do objeto amado. Aí sim! Um espetáculo de amor para se viver!




2 comentários:

Grata por registrar sua visita.