domingo, 12 de maio de 2013

Revisando conceitos...


Masked Ball - by Rafal Olbinski
Quando vi esse quadro eu achei que ele representava muito bem a maioria das relações amorosas entre um homem e uma mulher.
É impressionante como, normalmente, nos relacionamentos, somos nós mulheres que nos despimos, nos entregamos, nos colocamos por inteiro e o homem é sempre esse personagem fictício, com alma ausente e com, mal e porcamente, a presença de um corpo.



Pode ser que, da próxima vez que eu revir os meus conceitos, eu acabe mais uma vez por mudar de opinião ("essa eterna metamorfose" que sou). Mas, por hoje, é o que tenho. Às vezes escolhemos amar pessoas que, por um lado, nos transformam a vida num inferno. Mas, felizmente, por outro lado, também nos ajudam a nos tornar criaturas admiráveis e incomparavelmente fascinantes.



Há anos, para evitar cair em ciladas, eu tenho costumado defender (e vivenciar) algumas teses do tipo:

1     – Controle seus impulsos sexuais e não dê pra qualquer um.
2     - Valorize-se e pense dez vezes antes de se enfiar num motel com o carinha da balada.
3     - Pense com o estômago e não beije cinquenta bocas durante uma micareta (nojo!).
4     – Prefira estar só a ter inveja da camisinha e ser um “depósito de esperma”.

A justificativa para não cometer tais desatinos é quase sempre a mesma: evitar cair no vazio anímico que tais atitudes nos provocam depois de cometê-las. Eu disse "depois"? Bom, na verdade, o vazio não se forma depois. O vazio surge no "antes" (na verdade, é o que nos impulsiona a tomar as tais atitudes), tende aumentar no “durante” e se torna gigante no "depois".

Acredito que sejam poucas as mulheres que nunca tenham, pelo menos uma vez na vida, acordado com “ressaca moral”. Para essas poucas (talvez raras), a história (fictícia, ok? Qualquer semelhança terá sido mera coincidência) abaixo as ajudará a entender esse momento tão sublime (ironia nível 10) pelo qual a maioria de nós (mulheres) já passou.



De repente, em alguma hora de um dia (mais provável que seja numa noite) qualquer – e geralmente mais tarde (em todos os sentidos) do que você possa supôr –, você se vê acordando num quarto que decididamente não é o seu (ao menos em meu quarto não há espelhos no teto), tendo nada mais que um lençol para cobrir o seu tão cobiçado corpinho. E (hibernando) ao seu lado uma criatura que você vai preferir se enterrar a ter que lhe dizer “bom dia”, ou “olá” ou (em situações muito críticas) “quem é você?”. Como se já não fosse o suficiente, você ainda descobre que bebeu pouco (já que em sua cabeça existe memória recente, ainda que pouco nítida), pois através de flashes de imagem, instantaneamente, você começa a recordar – para o seu completo desespero – a sua desinibida atuação na noite anterior, tendo como cúmplice a criatura que, como uma criança de cinco anos, está agora dormindo profundamente ao seu lado. Levantando da cama em câmera lenta e depois saltitando pelas roupas jogadas no chão, você vai em direção ao banheiro, onde você constata que o espaço foi muito bem utilizado, já que existe espuma na banheira até agora e... Mas o que é isso? Uma, duas, três... Cinco camisinhas? Madre de dios! Depois dessa é melhor fazer a promessa de beber muito mais da próxima vez, pois mais vale um coma alcoólico a ter que carregar para sempre na memória as lembranças das atitudes de merda que a sua carência te obriga a cometer. Pedindo “pelamordetodosossantos” que aquela cansada criatura na cama não saia de seu estado de hibernação, você tenta vestir-se o mais rápido possível para, finalmente, saltar para fora desse pesadelo.

A situação não necessariamente será a mesma para todas, mas a sensação (a ressaca moral) seguramente sim, só variando no grau de intensidade. Então... Tirada a dúvida acerca da existência de outra ressaca além da alcoólica, acredito que neste momento alguém já deva estar pensando aliviada: “Ufa! Que bom saber que eu não sou a única louca da história!”.

Não, você não é a única, nem a primeira e tampouco será a última a sentir ressaca moral. No entanto, apesar das mais variadas teses que pouco ou nada contribuem para nos ajudar a evitar “canalhas avulsos”, há poucas teorias que nos ajudem a evitar também os canalhas do tipo “fixo”. “Canalhas avulsos”, “canalhas fixos”. Mas o que é isso? Eu explico.

Do que adianta se livrar das garras do infeliz que só quer te comer uma vez (canalha avulso) e não voltar a olhar pra sua cara nunca mais (e em alguns casos você vai agradecer muito por isso), se em algum momento você vai acabar se jogando nos braços de algum outro canalha (desta vez fixo) que vai só te comer (e muito mal) por meses, às vezes anos? E, o que é pior, você só vai enxergar isso depois que se livrar dele, porque, estando envolta em sua cega paixão (ou falta de amor-próprio), você estará impedida de fazer isso durante o "processo de autodesvalorização" que costumamos chamar de relacionamento estável. Porque é impressionante a capacidade que nós temos de tornar pior aquilo que já era desmedidamente ruim. Como, por exemplo, doar horas, dias, anos de nossa tão cara vida a subespécies medíocres que se proclamarão nossos maridos ou namorados e que, segundo alguém que conheci, “não merecem nem o nosso tédio”.

Eis então a questão: o que causa maior vazio anímico, ser mal amada só por uma noite por um canalha avulso ou ser mal amada por semanas, meses e, muitas vezes, anos a fio por um canalha fixo? E eu me antecipo e me arrisco a dizer que o que provoca vazio anímico maior é não amar a si mesma.

O caso é que temos que aprender a desenvolver um imenso amor-próprio antes de nos metermos com a espécie masculina. Pois, tendo em vista o facto de que nem esses milhares de anos de evolução da espécie humana tenham sido suficientes para uma evolução, é preciso estar sempre consciente de que a maioria dos homens não terá tão cedo a capacidade de lidar com o ser feminino. Então, aprenda a ser autossuficiente, a não precisar de seus ouvidos (eles quase nunca nos ouvem mesmo), de sua compreensão e jamais os tenha como base para seus planos de vida. Quando não se cria expectativas, tudo que se recebe é lucro.

Assim saberemos usar apenas para o prazer (seja lá de que tipo for) essas criaturas que muitas vezes parecem ser animais completamente irracionais. Pois as gerações deles têm nascido com cada vez menos massa cinzenta. A maioria já não tem vindo nem sequer com a dose extra de células neuronais que costumavam carregar (aqueles neurônios que, há um bom tempo atrás, eles recebiam para fazê-los entender que devem nos deixar passar à frente, que eles devem nos ceder os acentos, abrir portas, carregar nossos pacotes e nos proteger nem que seja só do frio).

Então, dane-se se eles nunca nos dão flores, se eles não têm noção alguma do que seja ser romântico. Aos diabos se eles não dão a mínima para nossas necessidades, ou se eles nos trocam por dez (às vezes onze ou vinte dois) machos suados e uma bola, porque no fundo homem gosta mesmo é de homem, mas só alguns nascem machos o bastante para admitir ou, em alguns casos, assumir isso.

Aprendamos a tirar proveito das poucas coisas que eles ainda podem nos oferecer. Quando tudo que eles querem é nos usar, deixe que eles nos paguem o jantar, o motel, o champanhe, porque mesmo que eles somem tudo o que gastam para estar conosco, certamente não dará nem um terço do que nós gastamos – inclusive em calorias, que o digam aquelas com metabolismo rápido – para dar a eles, entre outras coisas, um pouco de nossa maravilhosa companhia.

E se algum dia você sentir que encontrou um que compõe a minoria (ou seja, algum espécimen masculino que você sinta que valha a pena), não hesite em querer dar o melhor de si em todos (eu disse todos) os sentidos. Mas... muita calma nessa hora. Doses homeopáticas sempre. Só o faça se sentir confiante se ele for carinhoso com você. Só o aceite como ele é se antes ele for compreensivo com você até em seus piores momentos. Só demonstre admiração se ele for dedicado e demonstrar interesse pelo que você é. Afinal, se eles sentem necessidade de serem admirados, que eles lembrem sempre de que nós precisamos de devoção.

Lembre-se de aprovar as boas atitudes dele sempre, mas apenas se antes você conseguiu se sentir valorizada por ele. Demonstre que você reconhece os valores que ele tem e o encoraje sempre demonstrando o quanto você tem confiança nos muitos potenciais que ele tem, mas antes ele precisa te entender, ter respeito por você e demonstrar todos os dias o quanto ele se importa com você e com os seus sentimentos.

Se num relacionamento de amizade já é necessário haver uma constante troca de motivações, imagine então em um relacionamento amoroso? Ainda que se trate de um encontro de duas horas, se não houver troca, se não houver validação das necessidades de ambas as partes (a não ser que se trate de fetiche), não é relacionamento, é submissão, escravismo, é uso do outro em benefício próprio, pois quando uma das partes não está ciente das regras, não é jogo, é má fé, é enganação, é abuso.

Jamais existirá harmonia, durabilidade, respeito, companheirismo em um relacionamento se não houver dedicação de ambas as partes no sentido de fazer com que um esteja sempre a impulsionar, a apoiar o outro. No entanto, é uma lástima que nem sempre conseguimos saber quando estamos no momento de sermos dedicadas. Então, acaba que a dedicação ocorre de modo unilateral (quase sempre o nosso). E o resultado, óbvio, é o sofrimento.

No caso do ser feminino, é preciso viver de modo a aprender qual o momento certo em que se deve entrar no jogo masculino e também usá-los (muito) e depois desprezá-los (incomensuravelmente, como eles fazem conosco) para que nenhum dos lados saia perdedor. Mas é preciso também aprender a reparar qual o momento certo de se entregar (completamente), de se dedicar (como uma gueixa) e de amar (sem medidas e enlouquecidamente sã) ao homem que nos demonstra ter o mesmo propósito (fora a parte de ser uma gueixa, claro, se ele for um Tony Stark já estará de bom tamanho... brincadeira). Porque se nós acreditamos que merecemos ser verdadeiramente amadas, por mais inacreditável que pareça, por mais difícil que seja encontrar um, é claro que alguns homens também merecem ser amados.


2 comentários:

  1. Perfeito. A melhor parte é quando você cita que "Homem gosta mesmo é de homem, mas só alguns nascem machos o bastante para admitir."
    Eu estava precisando ler estas verdades.

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  2. Olá. :)
    Eu que te agradeço pela leitura do texto e pelo comentário que me fez voltar a meu blog e reler o que escrevi a tanto tempo que já nem me lembrava mais. Eu devia estar bem aborrecida quando escrevi isso, mas, ao reler, não discordo de nada. :D
    Abraços. :)

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