sexta-feira, 12 de julho de 2013

Há mais dignidade no quebra-quebra do proletariado do que na manifestação pacífica da burguesia





“Remember, remember, the 5th of November
The gunpowder, treason and plot;
I know of no reason, why the gunpowder treason
Should ever be forgot.”



O início dos protestos no Brasil neste ano de 2013 (conhecido como "o despertar do gigante") e o consequente multiplicar das aparições do Grupo Anonymous, não só por suas postagens e invasões em sites, mas principalmente pelas máscaras usadas pelos manifestantes que simpatizam ou compõem o movimento, são alguns dos motivos que fizeram com que muitos blogs, revistas, sites e páginas virtuais se motivassem a escrever acerca do personagem, seja ele o fictício ou o real, que inspirou o uso da tal máscara.

O caso é que, em meio a tantas máscaras e tantas palavras-chave sobre as situações do momento, as buscas virtuais ressuscitaram uma matéria da revista Superinteressante publicada em 2005 com o título "Conspirador ou herói?".

Ao ler a matéria, notei que a intenção do autor ao publicá-la era questionar a consciência e o conhecimento dos usuários da máscara do Vendetta, o fictício representante de Guy Fawkes.

Mas... Quem terá sido Guy Fawkes?


É possível notar na matéria várias informações tendenciosas (as quais eu citarei no decorrer da postagem) e isso é um perigo quando se trata de um veículo de informação de cunho cultural e científico com uma certa credibilidade... Acabo de me lembrar que a revista Superinteressante é do grupo Abril, assim como a Veja também é (momento de tensão)... Logo, o termo "credibilidade" cai no reino da dúvida... Bom, mas isso é assunto para uma outra postagem talvez. Continuemos... O facto é que todo veículo de informação deve responsabilizar-se pelo seu conteúdo informativo. Pois, no caso específico da matéria "Conspirador ou herói?", um leitor mal informado ou influenciável, vai ler o artigo e acreditar que já sabe tudo que precisava sobre essa história e muito provavelmente vai chegar à conclusão de que ao usar a máscara estará defendendo o terrorismo. No entanto... A versão que eu conheço é um pouco diferente da contada por Álvaro Oppermann.


Vamos então a minha versão.
(sem querer rimar já rimando)

De acordo com Farrington (1999), em A História Ilustrada da Religião, a Conspiração da Pólvora, ocorrida em 1605, foi um atentado (eu ainda diria tentativa de atentado, já que na verdade não ocorreu) planejado por um grupo católico liderado por Robert Catesby (e não por Guy Fawkes como afirma a matéria da Superinteressante). Holden (2003), em sua obra intitulada William Shakespeare (e antes que alguém questione o citar do escritor literário inglês em um assunto político-histórico, quem leu sobre a História da Inglaterra e conhece ao menos algumas obras de Shakespeare sabe o quanto ele a usou e mesmo a retratou em seus escritos), também afirma que o líder do atentado foi Robert Catesby, filho de Sir William Catesby e Anne Throckmorton.

Robert Catesby foi um inglês nascido em Lapworth, Warwickshire que, por pertencer a uma família católica, posicionou-se contra o governo inglês desde os tempos da Rainha Elizabeth, já que viu seu pai ser religiosamente perseguido quando negou-se a obedecer à igreja da Inglaterra. Por se haver posicionado contra o governo inglês, em 1601, Robert foi preso e multado por haver participado da revolta de Robert Devereux. Portanto, Robert Catesby era procurado e não Fawkes como podemos ler na matéria da Superinteressante.

A guerra entre católicos e protestantes na Inglaterra já existia muito antes do atentado ao Parlamento. Desde o movimento da Reforma iniciado no século XV pelo Rei Henrique VIII que, por não conseguir se divorciar da esposa Catarina de Aragão (o rei a acusava de não conseguir lhe dar um filho homem que o substituísse, pois na época não havia a noção de que quem define o sexo de um feto é o homem e não a mulher), rompe com a igreja católica, que se opõe ao divórcio, e cria na Inglaterra uma igreja nacional, denominada Igreja de Estado Anglicana, cujo bispo era o próprio rei (Schwanitz, 2004).

O catolicismo é restabelecido no governo da filha de Henrique VIII e Catarina de Aragão, Maria Tudor, a sanguinária (este título lhe foi dado devido às mais de 200 execuções determinadas por ela). Entretanto, quando Elizabeth, meia-irmã de Maria Tudor, filha ilegítima de Henrique VIII e Ana Bolena, assume o trono, o anglicanismo é legitimamente fundado, mostrando ao mundo que independentemente da religião a que seguissem os reis, as mortes por divergência religiosa jamais acabariam na Inglaterra enquanto alguém não entendesse o sentido de laicidade (eu sei, até hoje a humanidade ainda não entendeu o sentido dessa palavra).

A esperança dos católicos ingleses era de que o substituto da rainha Elizabeth I, o rei James I (taxado pejorativamente de bissexual e extravagante na matéria da revista Superinteressante), pudesse finalmente restabelecer o catolicismo no reino para que estes tivessem uma trégua em seus sofrimentos, passando aos anglicanos a condição de sofredor - claro, pois já que estava longe o dia em o fundamentalismo religioso teria fim, apenas trocam de posição opressores e oprimidos.

O facto é que a religião instituída continuava sendo o Anglicanismo, restando aos católicos sofrerem as mais variadas injustiças e perseguições por não seguirem as determinações reais da época.

E foi movido pelo ódio, pela indignação, pela injustiça de ser perseguido por uma crença, pela necessidade de professar a sua fé que Robert Catesby formou um grupo de católicos para planejar a explosão do Parlamento inglês e a morte do rei James I, já que este não poria fim aos seus sofrimentos. Guy Fawkes foi escolhido para detonar os barris de pólvora porque entendia de explosivos. No entanto, Robert Catesby ao saber que estariam ali muitos católicos, escreve uma carta na tentativa de evitar que estes se fizessem presentes no dia do atentado. E foi assim que o governo descobriu toda a trama.

Guy Fawkes foi preso nos subterrâneos do Parlamento, foi torturado para confessar os planos e denunciar quem eram os envolvidos, foi condenado e enforcado.

Quando trata em seu livro acerca dos ritos e o seu poder de ajudar a definir a identidade de um grupo incluindo ou excluindo membros, Burke (1995) cita as comemorações do Dia de Guy Fawkes (o conhecido 5 de novembro) como um ritual que, ainda hoje em vários lugares, trata da exclusão do catolicismo através de atitudes como atear fogo em um boneco que representa Guy Fawkes, ato que simboliza não apenas a vitória do protestantismo sobre o catolicismo, mas também a queima de um papa.


Guy Fawkes (como Tiradentes, um laranja que se tornou um heroizinho de merda) foi mais um católico perseguido pelos protestantes ingleses, que ficou de detonar os explosivos que explodiriam o Parlamento e que,  por haver sido morto, tornou-se símbolo de patriotismo, de justiça. Um Zé Ninguém que virou um símbolo de luta por nobres causas sociais.

No entanto... (e a partir daqui o texto conta principalmente com a minha opinião e não apenas com factos históricos) Guy Fawkes, independentemente da religião que professasse ou dos ideais por que lutasse, era gente que compunha a parte mais pobre do povo, que passa fome, que não tem moradia, que não tem dignidade, que nasceu de uma necessidade de sexo do pai e da subserviência da mãe, que foi criado de qualquer jeito porque os pais (se é que ele os teve) estavam muito ocupados pensando em qual seria a próxima refeição e se esta iria existir ou o suficiente pra a família toda. Gente que passa os dias preocupada com a sua sobrevivência a qualquer custo, que não pode comprar remédios, que enfrenta fila pra tudo (até para nascer), gente que dorme com calor, ou com frio (morre de frio), com mosquito, pelo chão, pelas ruas, no sol ou na chuva. Gente que cresceu ouvindo os "barulhos íntimos" dos adultos da casa (lembre-se que em casa pequena dormem todos juntos) enquanto tentavam dormir à noite. Gente que não recebe atenção de ninguém, nem de líder religioso que só sabe dar atenção a quem paga o dízimo. Gente que sofre DE VERDADE! Que tem raiva DE VERDADE! Que está cansado DE VERDADE! Não é gente como eu e você que temos cama, comida, amor, carro, plano de saúde, boa escola, acesso à informação, capital humano que nos permite reconhecer a injustiça e lutar pacificamente contra ela, porque depois da manifestação nós voltamos para casa, para usar o nosso banheiro com chuveiro elétrico para tirar o suor da caminhada duranta a nossa pacífica manifestação, ligar o nosso notebook para ver a repercussão na internet e no Facebook e deitar em nossa cama confortável, com o condicionador de ar ligado (ou a central) para dormirmos com a sensação de dever de cidadão cumprido.

É por isso que nós não temos raiva!!!!
Por isso nós não quebramos tudo!!!
Por isso nós manifestamos sem violência!!!



Então: ACORDEM!!!! Porque, assim como Robert Catesby e qualquer outro povo perseguido e injustiçado por séculos por "N" motivos acabaram apelando para a violência, O POVO BRASILEIRO ESTÁ CANSADOOO!! A massa pobre (de facto) já não aguenta mais. Eles foram transformados por esse sistema em bichos irracionais. Logo, não cobrem racionalidade a quem tudo lhe foi negado!!!


E longe de mim defender a violência ou atos de terrorismo, mas o caso é que tudo que é extremo traz problemas: tanto a massa pobre a quem tudo foi negado quanto a massa extremamente rica que por ter tido tudo (menos limite) acha que pode sair por aí como um rebelde sem causa e quebrar tudo por pura maldade e pobreza de espírito (essa pior que a financeira).

Então, condenem a violência do rico, mas não julguem a raiva do povo que sofre de verdade: se Robert Catesby, Guy Fawkes e companhia partiram para a violência após séculos de injustiça, é bom lembrar que no caso do Brasil são mais de 500 anos de injustiça social das mais variadas formas e cada um tem uma forma de reagir a ela.

O uso da máscara traduz a nossa fragilidade como povo. O ato de esconder-se demonstra o quanto estamos a mercê dos poderosos, que na possibilidade de nos designar "baderneiros", se sentem no direto de dar a ordem de nos fuzilar com a desculpa de que estavam apenas se protegendo de uma massa de desgovernados. O ato de pôr uma máscara na cara comprova que na realidade não vivemos uma democracia e sim uma ditadura disfarçada de democracia.

Acusar um manifestante mascarado de terrorista é subestimar os direitos que ele tem como cidadão. É manipular o povo com o intuito de fazê-lo sentir-se mal por lutar por seus direitos. O ato de se deixar representar por Guy Fawkes não se trata de defesa do terrorismo. Mas de defesa da massa aterrorizada, que infelizmente já não possui discernimento para protestar sem violência. Seremos nós, os que conseguem manifestar de modo pacífico, a camada do povo que deverá lutar por justiça social, pelo combate à corrupção, pelo fim da falta de vergonha na cara de nossos governantes, que, se não nos representam dignamente, deveriam ao menos ter a dignidade de deixar os seus cargos.


Porque, assim como publiquei na postagem "Porque eu não vivo nas enganosas propagandas políticas a minha realidade não é tão perfeita"se você come todos os dias, se tem um trabalho que você escolheu, se ganha bem em comparação com a maioria, se você é letrado, informado, se você possui conhecimento o suficiente para entender de modo muito fácil o que eu relatei nesse texto, então é você quem de facto tem que estar presente nas manifestações que estão ocorrendo no Brasil. Pois, parafraseando Julio Anguita Gonzalez, se você é bem informado, se você é bem formado, se você come todos os dias, se você tem um teto para colocar-se embaixo, se você tem roupa para vestir, se você tem as suas necessidades básicas satisfeitas, se você tem acesso ao conhecimento, já pode começar a ser livre. Porque se eu tenho que buscar qualquer trabalho por qualquer salário, lutando contra desemprego, me vendendo por qualquer centavo (porque, afinal de contas, meus filhos e eu temos que comer), eu não posso ser considerado um homem livre, ainda que queiram me convencer da minha liberdade porque eu tenho o direito de depositar meu voto nas urnas. Porque se eu sou movido pela minha fome e pela minha necessidade de me vender na tentativa de sobreviver, eu estarei fadado a receber esmolas, acreditar que está correto e jamais ter a capacidade de entender que na verdade eu tenho é que me revoltar contra esse maldito sistema. Porque a revolução deve ser feita por quem tem comida na mesa todos os dias, por quem consegue não ser violento e por quem já adquiriu a capacidade de não apenas ver, mas também de enxergar e principalmente reparar (agora parafraseando Saramago).


"Quando eu vejo multidões de selvagens inteiramente nus, zombando da insaciável volúpia européia 
e suportando a fome, o fogo, a espada e a morte para preservar apenas sua independência, eu sinto 
que não cabe a escravos raciocinar sobre a liberdade." (Rousseau)



Referências:

BURKE, Peter. A Arte da Conversação. São Paulo. Editora da Universidade Estadual Paulista, 1995.
FARRINGTON, Karen. A História Ilustrada da Religião. São Paulo. Manole, 1999.
HOLDEN, Anthony. William Shakespeare. São Paulo. Ediouro, 2003.
OPPERMANN, Álvaro. Conspirador ou herói? in Superinteressante. São Paulo. Abril, 2005.
SCHWANITZ, Dietrich. Cultura: tudo que é preciso saber. Publicações Dom Quixote. Portugal, 2004.



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