segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Autorretrato









- Você é o quê?

- Nossa! Que pergunta difícil!

Nós somos tanta coisa. Somos, estamos e trazemos em nós um universo de sentimentos, desejos, pensamentos, atitudes e mesmo de ausência delas. Somos uma infinidade de possibilidades. Mas sempre há o que ressaltar e o que infelizmente nos esquecemos de pôr na lista. Mas, não custa tentar. Então, quem sou eu?



Um nome com origem no verbo grego ‘aléxo’ e na palavra grega ‘andrós’. Aléxo que significa repelir, defender, proteger. Andrós que significa homem. Meu pai me nomeou Alessandra e me deu a pesada carga de ser protetora da humanidade e me amaldiçoou com essa consciência social que me deixa sempre com esse corrosivo sentimento de impotência.

Nasci entre montanhas e livros. Quanto às montanhas, as vejo como se fossem minha eterna morada. Um dia volta viver para, enfim, morrer entre elas. Quanto aos livros, aprendi a devorá-los já aos quatro anos de idade. O que me deixou com uma fome insaciável de palavras. No entanto, quanto mais eu leio, maiores são as minhas suspeições. Quanto mais conhecimento, maior a minha incredulidade. Quanto mais perguntas respondidas eu tenho, maiores as minhas incertezas.

Entre muitas outras coisas, sou Bibliotecária. E acredito que há milênios eu exerça essa profissão. Sou plenamente Licenciada em Letras, mas, me perdoem São Paulo Freire e São Jean Piaget, eu não tenho nenhuma fé na Educação do chamado Terceiro Mundo. Porque eu sei que a maior fonte de sustento de qualquer governo corrupto está em uma população completamente imune aos poderes da Semiótica.

Onde eu vivo vai depender muito de onde meus elétrons reapareçam. Assim, costumo estar em muitos lugares ao mesmo tempo. E talvez essa seja a única vantagem de se ter déficit de atenção. Acredito que a felicidade seja um aliem: ela costuma aparecer ao longe, nos deixando sempre na esperança de conseguir chegar perto, e quando, muitas vezes, já estamos muito próximos dela pode desaparecer de repente e não há nada que comprove a sua existência.

Algumas experiências me fizeram chegar à conclusão de que, quando não envolvem status ou dinheiro, algumas alegrias podem ser extremamente solitárias. E ser solitário está intimamente ligado à quantidade de autorretratos que você possui. E, por amar a solidão, talvez eu seja uma das poucas pessoas no mundo a associar o toque do telefone, seja ele móvel ou fixo, à invasão de privacidade, estorvo, falta de educação ou aborrecimento.

Entre as muitas manias que tenho, todos os dias, alinho as minhas sobrancelhas. A da esquerda porque seus pelos nascem voltados para baixo. A da direita porque tenho nela uma cicatriz. E todos os dias lembro que a pessoa responsável pelo surgimento dela já está morta.

Vejo as igrejas como lenitivos para quem não sabe que nasceu com deus internalizado. Eu sei que há em mim uma incontrolável tendência ao desprezo. Isso às vezes me assusta. Às vezes me dá prazer. Às vezes me deixa inerte. Travo quase o tempo inteiro uma luta interna contra o meu anacolutismo. E, às vezes, eu escrevo na primeira pessoa do plural na tentativa de disfarçar a minha prepotência.

Tenho um vício incurável: a Música. Uma paixão que não cede lugar: a Palavra. Um sentimento que, desde que existo, só tem aumentado: a decepção com o ser humano. Um desejo que me inflama a alma: morrer para ter de volta a minha vida. E uma única certeza: não há certeza sobre nada.





Texto resultado de um exercício de escrita em uma oficina com escritora Stella Maris Rezende em setembro de 2013.






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