quarta-feira, 23 de outubro de 2013

Estamos nos distanciando demais de nossos dejetos









O que será mais constrangedor, o que poderá nos dar maior aborrecimento, mais asco, o que será que mais forçosamente nos põe em nossa mais pura condição de animais do que entrar em contacto com os nossos dejetos?


Qual foi a última vez que você se deparou com uma pia entupida? Ter que encarar toda aquela gordura pelos canos, que, admita, deve ser a mesma que provavelmente está a entupir as suas veias. Todo aquele fétido resto de alimentos a perecer nas curvas e ralos do encanamento da sua casa. Aquele odor horroroso se espalhando pela cozinha, água suja pelo chão, aquela imundice toda e você tendo que manter contacto com aquilo que nada mais é do que uma das consequências do seu ato de viver.

E privada entupida? Você já teve que desentupir a privada do banheiro da sua casa? Algo conseguiu te deixar mais indignado, mais constrangido e com mais nojo de si mesmo do que se deparar com uma privada entupida? Isso é mais constrangedor do que levar amostras de fezes e urina para serem analisados em um laboratório. Mesmo que tenha um bando de gente te olhando, o ato de segurar aqueles malditos 'frasquinhos da vergonha' nem se compara à inominável situação de uma privada que se nega a engolir aqueles desprezíveis montes de massa de cor e aparência repugnantes, já em estado de putrefação antes mesmo de sair de um intestino qualquer. E a coisa não será muito diferente se o intestino em questão for o seu.

Desentupir esgotos deveria compôr o desenvolver de nossa existência, deveria acompanhar o desenrolar da evolução humana. Desentupir privadas e nos pormos em contacto com seu material repulsivo deveria ser um dos principais deveres de casa em nosso ato de viver. Deveríamos desentupir esgotos pelo menos uma vez por mês.

Colocarmo-nos em contato com nossos dejetos sem dúvida equilibraria não só a nossa vaidade, mas também ajudaria a diminuir a nossa soberba, a nossa pretensão a nos sentirmos tão especiais e muitas vezes tão superiores e tão pouco ou nem um pouco humildes.

Quem sabe o contato com as nossas imundices palpáveis nos ajudasse a diminuir a nossa imundice abstrata. Aquela que ninguém vê, mas nem por isso deixa de causar sofrimento a alguém.

Quem sabe assim descobríssemos que de facto somos todos produtores de dejetos até mesmo depois que morremos e que, portanto, somos todos iguais.

Será que o contacto com as vias que levam os nossos dejetos nos ajudaria a aprender a valorizar o que de facto é importante? Nos faria mais seletivos no quesito consumismo? Nos tornaria mais rigorosos quanto a decidir as nossas reais necessidades para viver?

Estamos nos afastando demais dos nossos dejetos e isso nos está tornando presunçosos, egoístas, egocêntricos, imediatistas, materialistas e despreocupados com o todo ao nosso redor.

Afinal de contas, os nossos dejetos não são apenas aqueles que saem de nosso corpo. Nossos dejetos são todo o lixo que produzimos em nosso dia-a-dia e infelizmente não nos damos conta, nos levando a agir de modo inconsequente, nos esquecendo que, do ponto de vista do Planeta, não existe a possibilidade de usarmos a expressão 'jogar fora', tampouco existe a possibilidade de cometermos o ato de 'jogar fora'.


Estamos mesmo nos livrando de nossos dejetos quando damos descarga após usarmos o vaso sanitário?

Até que ponto você se livrou do lixo da sua casa quando o acondicionou em sacolas plásticas e o colocou na calçada para o coletor jogar no caminhão?

Sabendo que todos nós somos produtores de dejetos os quais só contribuem de forma negativa para tudo que está a nossa volta, o que te faz pensar que você seja mais especial que o seu vizinho?

Estando ciente de que você pode, tanto quanto qualquer outro ser humano neste Planeta, poluir ar, água e terra com os seus dejetos diários, que grau de importância dar a sua necessidade de parecer superior, a sua soberba, a sua prepotência, a sua futilidade, à manutenção de seu consumismo exagerado?

Se os dejetos do seu intestino conseguem afetar o Planeta de forma tão negativa, quais serão as consequências negativas que surgirão quando você tiver que se livrar dos descartáveis que você inevitavelmente leva para casa todas as vezes que vai à padaria , ao supermercado, à farmácia... ?

E os descartáveis que você, como animal dito racional, poderia evitar produzir, como aqueles que você usou de modo tão desnecessário naquela festa para comemorar o aniversário de seu filho? Será que para expressar amor pelos nossos entes queridos precisamos infestar o Planeta com mais objetos inúteis que só servirão para aumentar o volume de lixo já existente?

Quando jogamos uma bandeja de isopor no lixo, será que não deveríamos pensar em quantas pessoas estão repetindo este mesmo ato no mundo inteiro e no quão tóxico é esse material?

Quando trocamos de celular só por vaidade tecnológica ou necessidade de se sentir superior ao outro, ou de se sentir gente, não deveríamos lembrar dos perigos do lixo radioativo e em todo desgaste planetário para produzir objetos de metal, plástico e minério raro?

Quando gastamos tanto dinheiro com futilidades descartáveis só para preencher os nossos vazios anímicos, como por exemplo aquela 'festa de arromba' para mostrar para todo mundo o nosso poder aquisitivo, deveríamos lembrar que não existe varinha de condão para tocar em todo lixo produzido por uma festa e fazê-lo desaparecer ou desintegrar.

Quando valorizamos o consumismo desenfreado, acreditando que o nosso bem-estar está aliado ao nosso poder de consumo, contribuímos para que o número de profissionais que trabalham para produzir a embalagem mais chamativa, o batom mais duradouro ou o carro mais potente, seja maior do que o número de pessoas que trabalha por encontrar uma forma de evitar a extinção de mais uma espécie de animal, ou do que aquelas pessoas que trabalham para encontrar uma maneira de reciclar mais vezes o mesmo material ou pela melhor forma de nos mantermos saudáveis sem a necessidade de produzir e vender tantos remédios.



Nenhum de nós é anjo.
Todos produzimos dejetos para poder viver.
Esse facto nos torna iguais em muitos sentidos, principalmente no quesito 'necessidades básicas'.
Mas para que todos tenham suas necessidades básicas garantidas é preciso negar lugar à ganância.

Precisamos urgentemente aprender a nos responsabilizar pelos nossos dejetos e descobrir modos de torná-los mínimos.
Temos que fazer isso antes que o espaço para dejetos tenha que ser maior do que o espaço que ocupamos para existir.
É preciso aprender a enxergar a nossa pequenez diante do Universo e, ao mesmo tempo, conhecer a nossa grandeza por ser parte dele.

O ato de tão-somente ESTAR no Universo pode nos tornar vulneráveis, incômodos, nocivos e desnecessários.
Mas SER parte do Universo pode nos tornar grandes, poderosos, de facto importantes... Mas toda grande importância, todo grande poder precisa trazer junto uma grande responsabilidade, uma grande consciência... Ou o poder nos corrompe, nos consome...

Ou já estará nos corrompendo, nos consumindo?...

Estamos nos distanciando demais de nossos dejetos...





































2 comentários:

  1. Muito bem. Uma observação nua e crua. A escatologia dá mais força à mensagem que pode chocar uns e outros. Produzimos dejetos ao longo de nossa vida, nós mesmos somos dejetos a ocupar espaço neste planeta.Somos responsáveis por tudo o que fazemos ou deixamos de fazer. Do ponto de vista do planeta, não há como jogar coisas fora, pois não existe "fora". Tudo fica por aqui a ocupar espaço, a entrar em putrefação, a contaminar mais e mais. Vida que segue. Não somos a primeira civilização a habitar este planetinha e nem a mais ignorante, talvez sejamos apenas a mais consumista e egoísta. Estamos todos fadados à extinção, cedo ou tarde. Do pó ao pó, da merda à merda. Isto posto, preocupo-me com o aqui e agora, com os dejetos emocionais que ficam a feder em nossos corações, mentes e almas. Não haverá consciência ambiental sem uma consciência social mais ampla. Não haverá educação ambiental sem uma reforma educacional mais profunda. Não se pode falar em salvar o meio ambiente, sem antes salvarmos a nós mesmos da ignorância, da indiferença, do consumismo irresponsável, da falta de ética, da imoralidade que grassa em todos os meios. É utópico pensar em salvar o planeta sem resgatar o homem. Penso eu. (Mauro Gouvêa - Filosofias&Filosofadas)

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  2. Olá, Mauro. Obrigada pela visita e pelo comentário.
    É sempre muito bom ler um texto bem escrito - coisa rara nos hodiernos tempos.
    Você também acredita na importância da evolução humana... Isso é bom. Fala em espécies, consciência... é reconfortante.
    Escrevi esse texto mentalmente enquanto desentupia o banheiro de minha casa. Mas tive outras inspirações do meu cotidiano também.
    Ler seu comentário me fez lembrar de dois outros textos meus. Basicamente as últimas frases que coloquei em um deles: Não estou desmerecendo nenhuma evolução tecnológica. Mas estas só serão verdadeiramente valorosas quando aprendermos a evoluir-nos antes das máquinas. E me lembra também das palavras que usei em outro, cujo título é: E assim caminha a humanidade.
    Os links para os textos, caso queira ler, são esses: http://alessandragaruzzi.blogspot.com.br/2013/12/consumismo-x-sustentabilidade.html
    http://alessandragaruzzi.blogspot.com.br/2010/07/e-assim-caminha-humanidade.html

    Mais uma vez obrigada pela visita e por deixar 'rastro'. Porque às vezes deixar rastros é bom. :)
    Um abraço.

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