sábado, 28 de dezembro de 2013

Consumismo X Sustentabilidade




Encontrei a matéria abaixo no site da Revista Casa. O título me interessou porque, honestamente, penso que o nosso viver neste planeta precisa ser, a cada dia, mais avaliado e medido para que não o danifiquemos mais do que já o temos feito desde que pusemos os pés aqui.


Apartamento em São Paulo é referência em soluções sustentáveis

O imóvel no alto de um edifício quarentão recebeu um pequeno reforço estrutural e foi renovado por inteiro pela SustentaX. É um dos protótipos que têm contribuído para o desenvolvimento do Referencial Casa, certificação que o Green Building Council Brasil passará a conceder, a partir de 2014, às residências que alcançarem os parâmetros de excelência em sustentabilidade. Por localizar-se em um prédio residencial, infelizmente não está aberto ao público.









E eu me antecipo afirmando que é impressionante, mas continua completamente inacessível para a maioria das pessoas ser 'ecologicamente correto'.




A matéria trata de uma infinidade de atitudes arquitetônicas ditas sustentáveis. Uma delas é o uso de um piso que tem como matéria-prima o bambu, uma planta tropical, de material muito resistente, cujo crescimento é considerado extremamente rápido, possui um tempo de renovação considerado curto em relação às outras espécies vegetais - características que poderiam muito bem lhe garantir a qualidade de ser acessível financeiramente, no entanto o verbo 'poder' aí está conjugado no Futuro do Pretérito do Indicativo, o que caracteriza dúvida, esperança, incerteza, mínima possibilidade de que tal facto aconteça. Bem, infelizmente, o bambu ainda é pouco utilizado no Brasil.

Este tipo de piso custa no mínimo (dependendo da Região) duzentos Reais (R$200,00) o metro quadrado instalado. Vamos ver... O meu quarto tem em torno de 12 m². Se eu quisesse instalar nele um piso de bambu, considerado ecologicamente correto por ser um material mais facilmente renovável no planeta, eu teria que gastar em torno de dois mil e quatrocentos Reais (R$2.400,00). Pagando este preço, eu poderia andar pelo meu quarto e me sentir 'ecologicamente correta'. Como eu vivo na Região Norte do Brasil, que desgraçadamente tem os impostos mais altos e o custo de vida mais alto deste País, posso sem dúvida alguma subir esse valor para quatro mil e oitocentos Reais (R$4.800,00), no mínimo.

A matéria trata ainda da importância de uma instalação elétrica inteligente para se ter uma casa 'sustentável' - decididamente a maioria das pessoas não sabe o que é sustentabilidade. Vejamos. O preço mínimo de uma lâmpada de LED é vinte Reais (R$20,00). E, dependendo da potência ou mesmo do tipo de lâmpada, esse valor pode saltar para cem (R$100,00), cento e trinta (R$130,00), cento e oitenta (R$180,00), trezentos Reais (R$300,00) por uma lâmpada (01 lâmpada) que (pasme!!!) pode te ajudar a economizar energia.

Compor a parte elétrica de uma casa de um modo simples e seguro já não é algo financeiramente acessível à maioria ds pessoas. Duvida? Na próxima vez que você sair de casa, observe as fiações elétricas, os postes de rua, as fiações em direção às casas das pessoas. Se por acaso passar por um bairro de moradores mais pobres, faça questão de olhar a fiação elétrica de suas casas, ainda que seja só a parte externa. Isto feito, comece a imaginar então uma instalação elétrica que envolva automação residencial e, baseado no que você viu, se isto é de facto acessível à maioria das pessoas.

Quinze reais (R$15,00) o metro quadrado é o mínimo cobrado por uma instalação elétrica simples. Não está incluído neste valor o material elétrico. Uma instalação extra não sai por menos de vinte Reais (R$20,00). E uma adequação ou reforma da instalação elétrica não custa menos de trinta Reais (R$30,00) o metro quadrado. repito: o material elétrico não está incluído no preço.

Achei muito interessante a ideia de divisórias internas e janelas de vidro para aproveitar a luminosidade natural, com o intuito óbvio de economizar energia elétrica. Muito bem, analisemos. O metro quadrado de vidro temperado liso com 6 mm de espessura custa no mínimo cento e quarenta Reais (R$140,00). Esse é o preço mais baixo, que pode saltar para quase 200 Reais (R$200,00 m²) dependendo da espessura e do tratamento que o vidro recebe. Então, alguns poderão ressaltar: 'Tem que levar em consideração o custo/benefício!' Diga isso a um assalariado que está 'fazendo das tripas coração' para levantar as paredes de sua nada ecológica casa.

Há ainda uma doação de móveis citada na matéria. Mas... Eu não sabia que fazia parte do ato de ser 'ecologicamente correto' fazer doação de coisas para quem precisa. Pensei que fosse parte ser-se humano... Enfim...

Ainda passeando o olhar pelas imagens, fui observando que custa mais de quinhentos Reais (R$500,00) a cadeira que está no corredor do apartamento. A cadeira de acrílico que está no quarto também custa mais de quinhentos Reais (R$500,00). Cada uma delas tem quase o valor do salário mínimo de um brasileiro.

As duas poltronas que estão na sala não saem por menos de quatrocentos Reais (R$400,00) cada uma. Dependendo da grife (há status envolvido nisso), esse valor pode ultrapassar mil Reais (R$1.000,00) por cada poltrona.

O facto é que quem vende, na maioria dos casos, não está preocupado se quem está comprando é ecologicamente correto, ou separa o lixo, ou doa coisas a quem necessita, ou é politizado, ou economiza água... Quem vende, na maioria dos casos, só está preocupado em vender e lucrar com isso.

Logo, não há como sermos uma sociedade sustentável tendo como base o consumismo. Enquanto nossa meta for o lucro, não há como ser ecologicamente correto. Enquanto continuarmos associando bem-estar a poder de consumo, não há como ser sensível ao facto de que fazemos parte de um organismo vivo chamado Planeta Terra e que compomos inclusive do Universo ao seu redor. Enquanto formos imediatistas, não enxergaremos que a harmonia desse Universo depende absurdamente do modo de vida de cada um de nós.

Sustentabilidade envolve muito mais do que fazer com que, dispendiosamente, moradores de um caríssimo apartamento gastem menos água e menos energia elétrica. É muito mais do que, em dezembro, transformar garrafas de refrigerante em árvores de Natal que, em janeiro, irão para o lixo. Sustentabilidade é tentar viver sem interferir tão brusca e negativamente no espaço ao nosso redor. É saber que se uma tecnologia não for acessível e útil a melhorar a vida de todos, significa que ela não está cumprindo o seu papel.

Para que não prejudiquemos ainda mais o planeta onde vivemos, é mais do que necessário fazer com que a maioria das pessoas tenha acesso à tecnologias que propiciem e facilitem e promovam modos de vida cada vez mais sustentáveis. Nossas necessidades são muito menores e menos dispendiosas e prejudiciais do que a nossa ganância. Mas estamos muito presos a convenções sociais para entendermos de profundidades como a evolução humana ou mesmo o facto de que quando apontamos o dedo para o céu, estamos afetando o brilho da estrela mais próxima...


Não estou desmerecendo nenhuma evolução tecnológica. Mas estas só serão verdadeiramente valorosas quando aprendermos a evoluir-nos antes das máquinas.





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