domingo, 9 de fevereiro de 2014

O que levam de nós e o que deixam conosco...





Compomos mais a vida das pessoas do que podemos imaginar. Estamos mais dentro da vida de quem passa por nós ou nos conhece do que podemos supor.


Pensei nisso hoje quando estava voltando para casa depois de haver terminado de fazer umas compras. Caminhava rápido por causa da chuva que já ameaçava cair de novo e não olhava muito ao redor. Mas foi impossível não notar um rapaz parado, quase na esquina, a me olhar e sorrir insistentemente.
Já estava passando em frente a ele com uma expressão de quem não está entendendo nada e quase perguntando: É para mim que você está sorrindo? Por quê? Eu te conheço?

Quando ouvi: "Você não está me reconhecendo?!?!"

Eu automaticamente parei a uns dois metros de distância dele e o respondi com um categórico 'não' que, junto com minha expressão, carregava implicitamente a estarrecida pergunta: E eu deveria?

O rapaz começou a despejar todas as informações possíveis: meu nome, lugar onde nos conhecemos, tempo de convivência, livros que emprestei a ele, visitas a minha casa, lembrou de minha mãe, de meu filho, foi inclusive voluntário em meu local de trabalho...

E eu, boquiaberta, ouvia a tudo, me sentindo a mais desmemoriada e tonta das criaturas. Ouvia a tudo estupefata, mas sem conseguir fazer ressurgir uma lembrança que fosse da pessoa que estava em minha frente e que narrava com requintes de detalhes a relação de amizade que tivemos uns dez anos atrás.

Conversamos uns dez minutos e, nesse ínterim, devo ter-lhe pedido dezenas de desculpas por não reconhecê-lo, pois eu notava sua felicidade em me rever após dez anos e eu só podia no máximo sentir-me grata por sua lembrança e carinho por mim.

E foi ao me despedir dele e buscando maneiras de nos encontrarmos de novo, que eu fiquei pensando que há muito mais de nós nos outros do que pode supor nossa imaginação. Em minutos tive a certeza de que, de facto, fica um pouco de nós em cada pessoa que encontramos, por mais rápido que seja o encontro, o contacto.

Mas, o quê será que deixamos nos outros? E, se deixamos, é bom? É ruim? Ajudamos a construir algo? Ou destruímos? Nosso contacto desperta amor? Ou, dependendo do modo como nos aproximamos ou permanecemos ou nos afastamos, podemos também despertar ódio? Pode ser admiração? Ou talvez desprezo?

Seja lá o que for, felizmente ou infelizmente, às vezes fica para sempre... E nem sempre estamos conscientes da importância de nos preocuparmos com isso.




Gratidão ao Felipe por me reconhecer e me cumprimentar apesar da minha cara de quem não estava entendendo nada. Gratidão a todas as pessoas que por mim passaram e deixaram em mim um pouco delas. E me sinto grata a todas as pessoas pelas quais eu passei, e com elas levaram um pouco de mim.


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